Clássico esquecimento Nacional

Estava eu conversando com um grande amigo meu (dada a reincidência desta frase como prólogo, noto que nada escreveria sem intervenção providencial de amigos providenciais) Conversávamos sobre Futebol; mais precisamente futebol carioca. Ele: – Flamenguista. Eu: – Tricolor. (Tricolor; o Fluminense, do Rio de Janeiro. O resto é time de três cores)

Apesar de Flamenguista, Pedro Botelho (escrevo Pedro, mas não é Pedro. Acrescento Botelho, e não sei bem o porque) é um sujeito razoável, de extremo bom senso. E dizendo isto, repito: – Apesar de Flamenguista. Sendo assim razoável e de extremo bom senso, Pedro Botelho encontra dificuldades em seus debates, quando confrontado em grupo de amigos. Contava-me do alarde que causou ao anunciar, francamente e em publico, que a verdadeira rivalidade do futebol carioca gira em torno de Flamengo e gira em torno de Fluminense; – o mundialmente conhecido FlaxFlu – e que esta rivalidade ideal não se deve apenas à perfeita adequação estilística, mas sim a uma vasta tradição de décadas a fio.

“Miceli, nada disse demais”, dizia-me Botelho, catando queijo e azeitonas com o palito de dentes, protagonizando o clássico petisco carioca. “Disse apenas que a rivalidade atual com o Vasco, exacerbada na década de 90, é coisa atual, é coisa nova. Tradicionalmente a rivalidade maior do Rio de Janeiro sempre foi – e é – o FlaxFlu. Nisso, todos saltaram sobre a mesa, como que procurassem levar-me ao sanatório. Diga-me, Miceli: – Teria falado eu algum impropério?”

Expliquei então que concordava. Que à década de 90, com a crise maior do Fluminense Football Club (que desfilava pelas várzeas do país enfrentando times de bombeiros, arquitetos, auxiliares administrativos, etc., etc.) coincidindo com a melhor fase do Vasco da Gama (que conquistava a taça Libertadores da América e depois era devidamente mandando para o Espaço com gol contra a própria meta empreendido pelo jogador Nasa – e aqui não há trocadilhos) causou este exaspero de rivalidade atual entre Flamengo e Vasco, também alimentado pelo Lobby do então (e atual) dirigente do Vasco, Eurico Miranda. Mas que nem sempre foi assim.

“Sim, sim. Parece-me óbvio… e foi o que eu disse. No mais, há literatura, há musicas, e há o próprio Hino popular do Clube de Regatas do Flamengo que nos diz: – “No FlaxFlu, é um Ai Jesus!” – reiterou. Acenei então à Botelho uma impressão que parece-me geral, não circunscrita ao âmbito futebolístico:

– Botelho, veja bem: – Parece-me que, para os idiotas, o mundo foi criado e fundado no dia do nascimento deles. Se viveram a década de 90, só houve a década de 90. Pais e Avós nunca existiram. Se sim, foi outra modalidade de existência.O mundo foi inaugurado com eles mesmos, e morrerá com eles.
(Botelho olhou-me como que aquiescesse, ele e uma azeitona final que ia-lhe à boca) – De fato o mundo morrerá com gente como essa. Um povo sem memória é incapaz de gozar de herança alguma.

Chegou então a conta; a conta do bar. Conta de queijinhos, de azeitonas e de cervejas, que temperavam a conversa até então. Botelho deu a revirar os próprios bolsos, inclusive o bolso frontal da blusa que usava. “Ora, não é possível…”. Não atentei para o que sucedia. A frase de Botelho ainda reverberava em minha cabeça: – “Um povo sem memória é incapaz de gozar de herança alguma” Então, eis que Botelho, vasculhando ainda outra vez os bolsos, concluiu, retirando-me do transe meditativo: – “Mas que diabo! Esqueci-me da carteira!”

Fonoaudióloga

Hoje pela manhã tive uma experiência singular e pitoresca: – Levei meu filho à uma fonoaudióloga. O que há de pitoresco em levar o filho à fonoaudióloga? Realmente, quanto ao levar, não há nada pitoresco. Quanto ao aguardar na sala de espera, não há nada pitoresco. Quanto ao pagar a consulta e traze-lo de volta, não há nada de pitoresco. Mas o fato digno de ser retratado foi: – Fui convidado à participar da sessão.

“Vamos fazer! É fácil! Olha, o Papai vai fazer também!” A doutora repetia o movimento com um cínico sorriso feminino nos lábios (há certos sorrisos que só uma mulher é capaz de realizar) “O Papai vai fazer também, e você faz igual ao Papai ! Igual o Papai e igual a Tia!”

Bom, fui lá fazer eu os exercícios. Matéria: – Dicção. Instrumentos: Caneta e uma rolha de silicone (?) Foram-me dadas frases (supostamente eu deveria pronuncia-las com caneta entre os dentes e, tendo conseguido, com rolha de silicone entre os dentes) Fiz tudo o que tinha que fazer, confiante no que, para mim, era verdade conhecida e inquestionável: – “Sei falar. Será fácil, pois bem sei falar. Falo desde os 2 ou 3 anos.”, pensava.

Não muito tempo atrás, quando peguei Romances de Machado de Assis para ler e poemas de Augusto dos Anjos para bisbilhotar, deparei-me com uma colossal decepção. A cada três páginas, esbarrava em 10 ou 15 palavras que não conhecia. Olhava capas e contra-capas dos livros, e perguntava-me: – “Em que diabo de idioma isto está escrito?” Ao certificar-me  que foram escrito mesmo em minha suposta Língua Materna – O Português – cheguei à terrível e inevitável conclusão: – “Sou um analfabeto.” E mais: – “Sequer tenho Língua Materna, sou um sujeito desprovido de Idiomas”

Vinha digerindo essa verdade última e inconveniente, recém descoberta, e posso até dizer que dei a conformar-me. Mas, quanto ao falar… Bem, eu ainda acreditava poder falar com alguma acuidade. Mas a jovem fonoaudióloga tratou de demolir minha ultima certeza existencial:

– Pa-Pá-i (tento reproduzir aqui a acentuação peculiar da doutora, chamando-me atenção), “não é assim que se fá-az” (novamente)
– Como não?
– Não é assim, Papai. É assim. (fazendo algo exatamente igual ao que eu havia feito, mas não para ela. Fazia-me repetir exaustivamente, mantendo o sorrisinho feminino inicial) Papai errou novamente!

Era só o que me faltava … Não saber ler e escrever era um tanto quanto tolerável, dado minha pouca prática à época juvenil. Mas falar? Quem não sabe falar? Pelo parecer da doutora, não sei. Não sei e, como meu filho em tenra idade, preciso de consultas. Intensas e numerosas consultas.

Mas a doutora não foi de todo ruim; fez-me um pacote e deu-me um desconto:

– Façam as aulas Pai e filho… (sorriso convidativo e anotando prescrições) Para o filho cobro metade, pois é fofinho… (adula o pequeno) … Já para o Pai é integral.

“Serei o que Serei”

Só o que não se realiza é Eterno. Pensei nisso. O que quer dizer, não sei. Ou melhor, sei. Melhor ainda: – Imagino. O Fato é: – Todos os meus “sonhos” realizados morreram. Tive de substitui-los por outros que, quando alcançados, encontravam igual sorte: – Mortos, de necessária substituição. Só meus sonhos inalcançados permanecem vivos. E por isso mesmo pensei: – Só o que não se realiza é Eterno.

E desta pequena reflexão pessoal, circunscrita à minha pequenez individual – tanto no tempo, quanto no espaço – vim a entender o conceito último de D’us. Sim, isto mesmo; compreendi completamente o conceito último de D’us.

“Miceli, o senhor é um petulante! Não seja prepotente! Está mesmo é como seu amigo Otávio: – O fracasso subiu-lhe a cabeça!”. Acalmem-se e explico-me. Como todos (ou alguns) sabem, dei a estudar Hebraico há pouco tempo. E surpreendeu-me saber que a famosa resposta de D’us à Moisés, quanto ao seu Nome, quanto a sua Natureza, não é bem a que eu pensava que fosse. Ou melhor, não é bem a que conhecem, majoritariamente.

Refiro-me ao famoso trecho do Livro de Êxodo, Capitulo 3, versículos 13 – 15, que nos conta: – “Moisés disse a D’us: – Quando eu for aos israelitas e disser: – ‘O Deus de vossos pais enviou-me até vós’; e perguntarem-me: – ‘Qual é o seu nome?’, que direi?”. Disse então D’us a Moisés: – ‘Eu sou Aquele que é'”

Essa é a tradução comum, a tradicional, para o português, conhecida por todos. Mas a resposta obtida foi de fato esta: – “Serei o que serei” Repito: – “Disse D’us a Moisés: ‘Serei o que serei'”

Dei a fascinar-me. Digo isto porque, juntando esta resposta com minha pequena reflexão individual “Só o que não se Realiza é Eterno”, há aí um bom encaixe. Finalmente vim a entender porque o D’us único e transcendente não pode assumir um nome, não pode assumir uma existência, seja ela de que natureza for, neste mundo. E o motivo é simples: – Nomear é limitar, e assumir existência em um mundo de existências efêmeras como o nosso, é assumir a Morte, é assumir um Fim.

O que é Eterno, por definição, não tem Fim. E o que compreende e transcende todas as coisas não pode ter um único nome. É todos os nomes e não é nenhum, por mais paradoxal que isso possa parecer. E a compreensão deste paradoxo explica também um outro paradoxo: – A importância das “trevas” na Criação. Como é dito em Gênesis Capítulo 1, versículo 2: – “Ora a Terra estava vazia e vaga, e as trevas cobriam o abismo” e no versículo 3 temos: – “E D’us disse: ‘Haja Luz’, e houve Luz”

Notem a exposição de um princípio: – Sem o vazio, não há possibilidade de preenchimento. E o “movimento” do preenchimento, o movimento do preencher o vazio, é a Vida. Digo isso porque aquilo que é pleno, está acabado.”O que não acrescenta termina”, já diria um sábio judeu (Hillel, se não me engano)

Ou seja, o ser Eterno implica num acrescentar constante; “Serei o que Serei”. E esta visão de “Movimento” como “Vida” vem concordar com um dito de Jesus preservado no Evangelho de Tomé, que nos diz: – “Se vos perguntarem: – ‘Qual é o sinal do vosso Pai em vós?’ Digam-lhes; ‘É movimento e repouso.'” Neste manuscrito Jesus alude à morte por este nome; “Repouso”, o que colabora para esta percepção de Vida como “Movimento”.

Enfim, fiz uma pequena viagem teológica (Não. Não há um narguilé no meu quarto) Mas transcrevo aqui para que vejam a riqueza de significados compactados em afirmações aparentemente simples, e que desconhecer o idioma original bem como todo a arcabouço da tradição oral e outros documentos, não raro, implica em perda de significado dos termos.

No mais, ouço muitos ateus dando a falar asneiras do tipo: – “Imagine só, se eu acreditaria nesta piega de Deus! Um homem barbado no céu!” Filho, se o conceito de Deus conhecido pelo senhor é “Um homem barbado no céu”, por favor, vá para o seu quarto, feche a porta, e… Fique por lá mesmo. Ao menos até criar alguma cultura, ainda que mínima, no assunto.

Trezentos reais

Trasanteontem fiz uma visita indesejada à emergência de um Hospital. Motivo: – Tosse. Intensidade: – Total. Havia febre e havia outros sintomas, menores. O Hospital: – Não cito nome. Limito-me a dizer que se instala na Tijuca, cidade do Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro.

Alegrou-me saber que o hospital havia sido fundado por freiras e, de fato, vi algumas passando aqui e acolá, sempre em duplas, e sempre sorrindo. “Estou bem assistido”, pensei. Caminhei toda a subida (entrada íngreme) em meio a arbustos verdejantes, que só pelo ar que proporcionavam já sanavam-me meia doença. Havia aves cruzando os céus, cantarolando, e apesar de todo este cenário natural, as instalações eram um tanto quanto modernas e vistosas.

“Sem duvidas, estou salvo”, concluí, já praticamente curado. Mas a cura de antemão era ilusória. Não durou. Acabou na recepção. Acabou com a atendente. Acabou com o boleto de cobrança, referente a visita aprazente: – Trezentos reais. Observei o valor e comecei a imaginar que cobravam pelos arbustos, pelas árvores e pelas freiras que sorriam. Sim, porque, em meu singelo atendimento (feito, se não me engano, por uma estagiaria, estudante de medicina – tão prática quanto antipática), não consumi um esparadrapo, uma gaze, um algodão. Também não fiz nenhum exame. E estava lá, a cobrança inexorável, estampada no boleto branco, quase que transcendental: – Trezentos reais.

– Minha filha, veja bem (dei a argumentar, pateticamente, sondando algum engano) Não extirparam-me o apêndice, nem enfiaram-me naqueles tubos modernos. Tudo o que a senhorita que atendeu-me fez foi mandar-me abrir a boca e por a língua para fora. Isto me custou trezentos reais?
– É o que está escrito?
– Sim.
– Então é isto mesmo.
– …

Sendo devidamente atendido e tendo tudo esclarecido, saí dali. Havia outras freiras passando e tratei de não reparar-lhes o sorriso. Os arbustos farfalhavam, oferecendo-me ar fresco, mas não quis consumi-los (Prendi a respiração) – Estava com o boleto e mãos e o olhava. E os pássaros? Passaram, também, novamente, e tapei os ouvidos, não pagando-lhes a canção.

Ao passar pelo portão, em derradeira saída, notei que já não tossia havia algum tempo. Quanto tempo? Fiz uma retrospectiva mental e conclui: – O boleto. Não foram as freiras, os arbustos, os pássaros, a atendente ou a estagiaria, que haviam-me curado.Tão pouco seriam os remédios (até porque, tendo pago o boleto, pouco ou nenhum dinheiro sobraria-me para compra-los)

A cura fora o escândalo.Sim, o escândalo. Escândalo em três dígitos: – Trezentos reais.

Os circundantes

Trabalhar no comércio, no comércio de rua, tem suas peculiaridades, tem suas vantagens.

Há contato com transeuntes, e há contato com circundates.

Sim, circundantes.

Circundantes são aqueles que, dado algum acontecimento pitoresco em vias públicas, param, amontoam-se, e dão a redigir noticiarios, matérias, em tempo real (não raro acrescentando seus proprios pormenores – ou pormaiores)

Certa feita um sujeito atravessou a esquina. Como estivesse desatento, foi arremessado. Vôou e estatelou-se. Não houve morte. Falava. Melhor; agonizava.

Atropelado.

O veículo; Onibus.

Haviam passageiros. Com eles, o alarido. O alarido monumental da pressa;

“Motorista ! Como foi atropelar este homem ? Temos horário para trabalhar !”

Surge o guarda municipal.

Guardas municipais são figuras espectrais. Ninguém os vê, quando precisa deles. Mas certamente aparecem para multa-lo. Surgem de boeiros, da copa das arvores, detrás de postes (mesmo finos), descem montando as aves do céu.

Enfim, não havia multa, havia um atropelado, e mesmo assim o guarda municipal incrivelmente se fez presente (talvez tivesse sido pego de supetão)

Lograva o controle impossível do transito caótico (tratava-se de cruzamento) e o controle igualmente impossível dos circundantes. Estes , por sua vez, precipitavam-se para ver o morto. (Não havia morto e retornavam, frustrados)

Mas muitos ficavam. Ficavam e começavam a redação.

Aqui;

“Fulana, como se deu o atropelo ? O que aconteceu ?”

“Assalto ! Assalto no onibus ! O motorista perdeu o controle e atropelou o pobre coitado!”

Acolá;

“Sicrano, como se deu o atropelo? O que aconteceu?”

“Briga de marido e mulher ! O Sujeito descobriu seus chifres e atacou a todos ! Sobrou até para o motorista, e por conseguinte, para o pobre atropelado !”

Não havia reporter, mas já havia a noticia; Escrita, editada, publicada pelas bocas.

Ou melhor, noticias – plural. Noticias para todos os gostos.

O atropelo, o agonizante, o trânsito engarrafado, tudo tornara-se secundário.

Discutia-se o suposto assaltante, o suposto traído.

Como não havia assaltante e como não havia traído, houve adaptação.

E a versão final, que ouvi da boca de circundante proeminente (uma senhora esférica e agitada), foi esta;

“O Sujeito é bandido. E descobriu ter chifres. Sim, chifres. Veio atrás da mulher no trabalho dela. Bandido violento, agrediu a moça. Na hora de fugir, foi atropelado.”

A resposta veio em coro jubilar, louvando a justiça recém realizada;

“Bem feito !”

A lebre

Linha 422: Grajaú – Cosme Velho.

Faço o sinal. Para o motorista.

Entro.

Está cheio, não tanto.

Encontro lugar.

Sento-me ao lado de um jovem com fones. Este inofensivo, de fones também inofensivos (não reverberavam nenhum Funk Carioca)

À frente, duas meninas. Meninas-Moças. (Arrisco 16 para uma e 17 para outra)

Como desconheço nomes, irei chama-las assim mesmo; “Uma” e “Outra”.

Uma soluçava. Uma gemia. E eu, estando ao banco de trás, não via lágrimas, mas ouvia.

Ouvia e pensava; “Chora de amor. Menina-moça já chorando de amor”

Outra cuidava de Uma com esmero. Consolava, iludia para consolar.

“Também não é assim! Também não é assim! Não é o fim do mundo!” (Nesta idade desilusão é fim de mundo)

“E agora, o que vai ser de mim ? Me diz ! Ele era o homem da minha vida ! Entende isso? O homem da minha vida!” (Ocorreu-me dizer que ela teria ainda outros 3 ou 4 “homens de sua vida”, mas não quis ser rude. No mais, o imbróglio não me dizia respeito)

Estava apenas como espectador; Eu e os demais passageiros, condoídos com o choro da menina, ouvindo a sinfonia de gemidos e o estalado dos soluços. De fato, havia algum desespero. A não ser para o jovem; Para o jovem dos fones. Este fazia sua propria viagem.

Então, Uma disse;

“Atiro-me pela janela! Em movimento!”

A Plateia segurou nos bancos. (O jovem, impávido)

Outra interpelou;

“Não vai se jogar de lugar nenhum ! Você nem passa por essa janela, ouviu bem? Não passa nem se quiser ! Fique aí quieta !”

E senhoras, e senhores, apartavam;

“Fique aí sentada menina! Se acalme! Pelo amor de Deus! Não vá se matar com a gente aqui dentro!” (Notem a preocupação: “Não vá se matar com a gente aqui dentro”)

Uma se debatia, Outra acudia, como podia, e podia pouco.

Eis então que o inusitado acontece;

O jovem dos fones retira os fones.

Não de forma brusca, não de forma comum. Retira-os solenemente, um de cada vez, e ergue-se como um totem , ereto, erigido.

Aborda a menina.

Era ele, o tal homem de sua vida.

Haviam terminado. Poucos dias. O acaso os colocara no mesmo ônibus.

A principio irredutível ao histrionismo jovial da amada, ele agora manobrava-a, acalmava os ânimos, e não somente isso; Para surpresa (e revolta) geral, após todo o alarido desconcertante, os dois terminaram por sair aos beijos, na estação seguinte.

A Outra, coitada, que sofreu todo o disparate da amiga, bravamente, permaceu no onibus por mais algumas estações. Notei que havia com ela uma edição de bolso de “Bom é o que acaba bem”, de William Shakespeare.

Se não me engano, há uma frase nesta peça que nos diz;

“A lebre que vê esposo no Leão
Morre de amor”

A Ilusão da escassez

“Estou farta desta vida! Só trabalho e estudo! Não tenho nada! Nada!” Estas são as lamúrias Eternas da donzela Beatriz; uma menina muito doce, de traços finos e trejeitos femininos (não como os de Augusto – mas genuínos), singela e bela como uma boneca de porcelana. Antes fosse mesmo uma boneca, graciosamente emudecida, pois quando dá a falar, dá a reclamar.

– Você não acha, Miceli ? Não acha que temos uma vida miserável? Vale a pena viver nesse aperto? Diga-me se vale!

Não ouvi a pergunta. Devo admitir: – Quando estou a caminhar com Beatriz, desligo os ouvidos.

– Miceli? (cutucou-me)
– Hum …
– Responda a pergunta, diabo!
– Que pergunta?
– A que fiz!
– Fez pergunta?
– Sim!
– Quando?
– Agora mesmo!
– Não ouvi.
– Claro que não! Vive com a cabeça na Lua!
– …Refaça a pergunta.
– Falava de nossa miséria… do trabalhar para comer… do não ter nada de valor… Não te inquieta ter tudo faltando, homem de Deus?
– Pois não eu digo que não falta-me nada.
(A menina lamúria tropeça) – Como não?!
– Estou satisfeito.
– (saltou) Impossível! (continuou) Não existe ninguém satisfeito neste mundo! Todos estão precisando de alguma coisa: Uma roupa, um carro, uma viagem, um romance, um emprego, uma promoção no emprego… (numa obstinação da falta) Alguma coisa está te faltando, pode me dizer! Vamos! Diga-me logo e dou-lhe uma moeda!
– Pois não há nada faltando, mesmo.

Atravessávamos uma rua. Chegando à outra margem, a conversa emudeceu (se você não tem do que reclamar , não tem o que conversar com Beatriz. Na verdade, noto ser assim com muita gente) Dei então a explicar o escandaloso contentamento:

– Veja, Bia (sim, tentei acalenta-la), a única escassez que enxergo é a de gratidão.
– Escassez de gratidão?
– Sim. Temos tudo o que precisamos. E mais: – Temos até mesmo o que não precisamos.
– Tudo o que?
– Para começar do começo, a donzela está aí, cheia de vida, falando pelos cotovelos…
– E o que tem?
– Diga-me que grande mérito você teve para vir à vida; qual foi a sua parcela de participação? Qual foi o seu grande esforço? Nenhum, evidentemente. Foi-lhe dado, de mão beijada. No entanto, não agradece, e até mesmo amaldiçoa.
– …
– Sem contar o fato de viver como Rainha.As rainhas de outrora não tinham o seu conforto, não tinham suas facilidades. Para ser trivial, não tinham ventiladores, ar condicionado, conduções a motor, vias asfaltadas, toda especie de alimento disponível em mercados próximos, comunicação imediata por telefones, TV, internet, todas as músicas do mundo e todas as obras literárias do mundo acessíveis a um clique de botão… Se eu fosse enumerar todas as coisas, acabaria falando mais do que você. Mas como sabe, sou taciturno.
– É, olhando por esse lado eu até tenho algumas coisas…
– E não aproveita nenhuma delas. Na verdade, é isto mesmo que te perturba: – Tem tudo, não realiza nada.
– Que horror! Não precisa ofender!
– Perdão, meu doce; não pretendia ofender. Aliás, isso me lembra a acurácia de uma máxima Judaica: – Uma palavra pode valer uma moeda. Mas o silêncio vale duas…