O encantador de antiquados

Má fase.

Estou em uma má fase dos diabos.

Se bebesse, já teria me afogado em Scotch.

Se fumasse, já teria consumido maços de Malboro; Pacotes, em profusão.

Sim, vejo-me fumando e bebendo,e largado à sarjeta. (Mas D’us, em sua imensa sabedoria e misericórdia, presentiou-me com certa dose de covardia, de modo que não fumo e não bebo, e não autodestruo-me, passando pela sarjeta sem fixar residência.)

Para completar, ouço John Coltrane. Sim, John William Coltrane, este “negro maravilhoso” (como diria o narrador global Luiz Roberto, ao narrar jogos de seleções africanas; “Esses negros maravilhosos! Olhem estes negros maravilhosos !” – exclama, incontinente, em uma empolgação olímpica, quase mesmo comovente)

Ouço e maravilho-me com suas interpretações sensíveis e seu virtuosismo ao saxofone. Sem dúvidas; Um gênio. Da Carolina do Norte para o mundo, do mundo para meu laptop. (Faz sentir-me velho, posto que gênio.)

Este é o ponto; Faz sentir-me velho. Mais; Antiquado.

Sou um sujeito antiquado, da planta dos pés ao último fio de cabelo (que alias começa a ralear – discretamente)

Nasci antiquado, cresci antiquado, e parece-me inevitável; – irei antiquado até o último dia.

“Miceli já nasceu cansado”, dizem amigos, em tom de troça.

Falam como troça, mas não considero como troça. Antes mesmo, é uma constatação. Uma constatação inequívoca, irrefutável e incontornável.

Enfada-me o mundo. Parece-me que enfadava o menino Coltrane também, e ele buzinou isso em seu saxofone, comunicando o seu enfastiar a todos os enfastiados, e todos os enfastiados o aplauridiram, momentaneamente entusiasmados. Entusiasmados – rejuvenescidos, posto que antiquados.

Salvemos o indivíduo brasileiro

Há muito parei de comentar Política, de militar por essa ou por aquela causa. Não que ainda não comente um acontecimento ou outro, que não tome posição, quando perguntado. Mas eis que aprendi uma máxima infalível: – “Onde estiver o corpo, aí também se reunirão os abutres”  (Jesus Christ quote) e o Brasil me parece isto mesmo: – Um grande corpo, um grande cadáver. Os corruptos de instância maior são apenas os abutres; os abutres reunidos, os abutres que consomem o cadáver.

E por que considero o Brasil um grande cadáver? Para começar, acho que o Brasil começou a morrer na sala de estar do brasileiro (ali mesmo, onde há televisão e há mesa de jantar) Quando uma família não se reúne para uma refeição, os abutres sentem o cheiro; o cheiro de uma casa dividida contra si mesma. O Cisma começa na sala de estar, sob o olhar atento da televisão, e daí se alastra por toda rua, por todo o bairro, por toda a cidade, por todo Estado, até os confins do País.

Sim, vejo pessoas isoladas. Pessoas sob o mesmo teto, que não se conhecem. Vizinhos que moram ao lado, mas que se morassem em outro planeta, continuariam da mesma forma; inescrutáveis (quando jovem eu costumava gritar “Nense!”, a cada gol do Fluminense, e um sujeito respondia “Mengo!”, a cada gol do Flamengo; – esta foi uma das fases mais notórias no que diz respeito a comunicação minha com vizinhos)

“Isso nada tem a ver com Política!”, objetarão, talvez com razão. Mas o ponto essencial é: – As pessoas estão desarticuladas. E mais: – Estão sem Princípios. Não há Princípios comuns que unam uma Família, que mantenham uma Família. Quanto mais princípios comuns que unam um Povo, que mantenham um Povo. Cada um pensa por si, fala por si, age por si. “É bom ser livre e independente”, dizem os mais jovens (e até os mais velhos) “Cada um pensa como quer, age como quer” – comemoram. Ouço isto tudo e penso: – “Pulhas”

Tentem vocês moverem um piano com cada um empurrando em uma direção. Adianto: – Impossível. “Uma casa dividida não prevalece”, diz outra máxima, igualmente infalível. (Jesus Christ quote again) E apelo ainda a uma terceira máxima, também do nazareno: – “Quem é fiel nas coisas mínimas, é fiel também no muito. E quem é iníquo no mínimo, é iníquo também no muito.”

Parece-me que o brasileiro não tem honrado as “coisas mínimas”. Não honra o próprio Pai, não honra a própria Mãe e nem ao próprio Filho. Não honra o próprio Trabalho, nem a própria Família. Claro, não são todos. Não generalizo (generalizar é erro grotesco, sempre) Mas convenhamos: – A imensa maioria de nossas famílias está destruída. Mais: – O indivíduo brasileiro está mediocrizado, e sozinho.

Neste quadro, parece-me devaneio falar em Política. Não se faz Política sem o indivíduo. Alias, não se faz nada sem o indivíduo. Salvemos o indivíduo brasileiro.

O Fetiche da distância

Sou um homem de pequenas distâncias, a distância nunca me deslumbrou. Para mim, há beleza no que é próximo, no que é vizinho. Digo isso porque cheguei a seguinte conclusão: – Há um fetiche geral pela distância.

Se o sujeito mora ao lado da Basílica de São Pedro, ela deixa de ser a Basílica de São Pedro. Não sei se entendem o que quero dizer. Por vezes, falo eu das belezas postais do Rio de Janeiro: – O Rio de Janeiro tem todos os cartões postais do mundo no intervalo de 30 minutos. – É o que digo. No entanto, o carioca boceja, num profundo tédio visual. Turistas cruzam terra e mar logrando uma breve contemplação de nossas maravilhas. No entanto, o carioca boceja, em profundo tédio visual.

Em contrapartida, veja o carioca no exterior, veja o Brasileiro no exterior: Ele para diante de um buraco. Contempla o buraco e medita sobre o buraco. Por fim, conclui: – De fato, não há buracos como esse no Rio de Janeiro. Não há buracos como esse no Brasil.

Nisto digo: – Há o efeito subjacente do fetiche: O fetiche da Distância.

Nada próximo tem valor. Os restaurantes do quarteirão não tem sabor. Os Shoppings do quarteirão não têm produtos, a agua do mar adiante é menos molhada. A distância unge todas as coisas com o seu apelo do que é inacessível, do que é inalcançável.

E este principio exerce apelo irrevogável, até mesmo sobre a vida; – a vida próxima não tem valor. Há miseráveis no Brasil, mas os miseráveis na Africa são mais miseráveis. (A distância lhes confere miserabilidade maior e mais urgente) E há vida no mundo, mas a vida de supostas bactérias interplanetárias é mais interessante.

O Homem Moderno criou uma distância tão grande de si mesmo que teve de construir pontes de Rivotril.

“A misericórdia também corrompe”

Tenho visto muitos cristãos maravilhados com a atitude da mulher que, diante do assassino de seu próprio filho, disse perdoa-lo, em encontro emocionado (por parte dela), diante das cameras.

Extasiados, celebram o “amor superior” do episódio, dizendo que este sim, é o “Amor Cristão maior”, pretendido ser alcançado por todos.

Pois eis que fui compelido a dizer;

Como cristã, essa senhora vai muito mal.

Primeiro porque vai contra a Lei que Jesus disse ser Eterna e disse ter vindo plenificar.

O que diz a Lei, no que diz respeito à homicidas ?

Genesis 9:5-6, nos diz;

” Do vosso sangue, que é a vossa própria vida, pedirei contas ao Homem: a cada um pedirei contas pela vida do seu irmão. Quem derramar o sangue do Homem, pelo Homem verá derramado seu sangue, pois à imagem de D’us, D’us fez o Homem.”

Em Êxodo 21:12, afirma-se taxativamente;

“Quem ferir mortalmente um homem será morto”

Segundo porque não há como se perdoar aquele que não pede perdão.

Como Jesus mesmo disse;

“Se seu irmão pecar, repreende-o. e se ele se arrepender, perdoa-lhe.” Lucas 17:3

Observe o uso condiocional “Se ele se arrepender, perdoa-lhe”

E mais.

Jesus mesmo diz;

” Não dêem o que é sagrado aos cães, e não atirem suas pérolas aos porcos. Caso contrário, estes os pisarão e aqueles, voltando-se contra vocês, o despedaçarão. ” (Mateus 7:6)

Então, caros amigos que se dizem cristãos, não deixem que esse falso moralismo e esse falso amor universal abstrato os tornem incapazes de reagir ao mal no mundo.

Essa falácia hipócrita vem impedindo os justos de fazerem justiça e permitindo aos maus cometerem todo tipo de atrocidades, falsificações, roubos, assassinatos e toda espécie de imundície.

Há diversos tipos de faltas, de transgressões, de erros, equívocos. Todos passíveis de restituição, e de consequente reinclusão ao povo.

Mas o atentado contra a vida não é perdoável. (Especialmente quando o assassino não se vê como um assassino, não vê necessidade de correção, quando se orgulha do que faz)

É como dizia o glorioso Nelson Rodrigues;

“Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.”

O Brasil está de férias

O nome denuncia: – Sou descendente de Italianos. Na verdade, meio Italiano, meio Português. Rodrigo Miceli Amorim, diz o Registro Geral. Meu avô, como todo Italiano, trabalhou com bancas de jornais. O avô Português nunca foi padeiro, o que me intrigou por algum tempo. Tornei-me, então, jornaleiro, por circunstância.

Bancas de Jornal são algo como lojas de conveniência. Ou melhor, lojas de inconveniência. Espalhadas pelas calçadas, o sujeito tropeça numa delas,e como que pedindo desculpas, volta para comprar algo. Tornei-me jornaleiro: Jornaleiro que não lê jornais.Vendedor de revistas de fofoca que não lê revistas de fofoca.Vendedor de cigarros que não fuma cigarros.Vendedor de créditos de celular que não usa celular.Sou o anti-jornaleiro, confinado em uma banca de jornais.”Sofrível!”, pode pensar o leitor.E é mesmo.

Mas não é sobre isso que pretendia falar. Falarei sobre feriados. Sim, feriados. Por todo lado, vejo devoradores de feriados.”Quando será o próximo feriado?”, é o que perguntam. Anseiam pelos feriados existentes e por feriados que ainda estão por existir.

– Há feriado disso?
– Sim
– E daquilo?
– Também.
– Precisamos criar novos feriados. (concluem)

Para o comerciante (bem como para todo aquele que produz, em geral) o feriado é uma tragédia Grega. Há boletos impagáveis. Há choro e ranger de dentes.

Certa vez estava eu em uma aula de idiomas: – Hebraico (parece fugir ao tema, mas não foge. Explico-me a seguir) A professora;: – Judia, residente em Israel. Dava inicio às atividades. De principio, lembra-nos haver uma aula em aberto, uma aula pendente, de necessária reposição. Deu-se a folhear algo (provavelmente uma agenda), percorria toda a extensão de semanas, meses, procurando dias elegíveis. Acha o primeiro, cita-o em voz alta:

– Dia tal.
(Surge Fulano) – É feriado, em meu município.
– Dia tal.
(Surge Beltrano) – É feriado, em meu município.
– Dia tal.
(Surge Sicrano) – É feriado, em meu município.

A senhora inquietava-se. Afastava o cabelo do rosto e ajeitava os óculos, como que ganhando tempo para respirar, profundamente. Manuseava novamente a agenda, agora depressa, flagrantemente impaciente:

– Dia … (vacilou. Houve um discreto suspense, perceptível aos mais perspicazes) Dia tal.

A temida resposta veio em uníssono: – Feriado nacional! (em coro)

A senhora judia caiu para trás da cadeira.Vimos os tamancos, mas se recompôs rapidamente, iniciando-nos a uma sova internacional: -“No Brasil há muitos feriados, muitos feriados…” Nós, brasileiros, por nossa vez, não a entendemos. Ficamos olhando-a, pelo monitor, como que assistindo a uma transmissão interplanetária (Já disse eu esta ser uma aula por vídeo-conferência? Se não, trata-se de aula por vídeo-conferência)

E ela prosseguiu: – “Em Israel há muitos feriados, mas não como o Brasil. Não há espaço para dias úteis no calendário Brasileiro.” A essa altura eu já começava a me identificar; começava a compreender a exposição interplanetária. Digo, internacional.”Não há dias úteis no Brasil”, refletia eu, como que experimentando uma revelação divina, transcendental.Os demais alunos, no entanto, continuavam impassíveis, imóveis, sentados sobre seus respectivos feriados.

A senhora Judia prosseguiu, implacável: – “Bem sei que no Brasil há 30 dias de férias. Em Israel, porém, são apenas 10.” Houve alvoroço. Brasileiros crisparam-se só de pensar na possibilidade: – “10 dias de ferias por ano… 10 dias de férias por ano…” As cabeças giravam. Houve náuseas profundas (se não me engano, ouvi alguém vomitar)

Mas a Judia estava determinada; determinada a mostrar nossa futilidade existencial. E foi além: – “Bem sei também existir algo conhecido como décimo terceiro salário, no Brasil. É impossível explicar o conceito de décimo terceiro salário para Judeus. Ao saber do que se trata, respondem, estarrecidos: – ‘Como pode um homem trabalhar 11 meses e receber uma remuneração referente a 13 meses de trabalho?'”

Sim, se há 30 dias de ferias, trabalhamos apenas 11 meses por ano. No entanto, recebemos por 13 meses de trabalho. A lógica cruel da dignidade Judaica escandalizou a todos. Houve interjeições esganiçadas, protestos, retaliações: “Absurdo!”, “Escravidão!”, “E os direitos Humanos?”, “Nazistas!” (?)

Se estivéssemos em uma universidade brasileira, haveria motim. Haveria ocupação. Haveria napalms cintilantes voando para todos os lados. A Policia Militar seria acionada. Haveria cassetetes em coxas e hematomas.Para a sorte de todos, estávamos em âmbito virtual. Bastou apenas um clique para professora calar a fauna nacional, cortando-lhe o áudio.Deu sua aula normalmente, e foi uma ótima aula.

Por minha vez, estava eu maravilhado. Não pela aula, pois estudo Hebraico há dois anos e não sei pedir um copo d’água em Hebraico (malgrado a boa qualidade do curso) A ideia de existir um país onde o trabalho é visto com esmero, como algo digno, prazeroso e não apenas necessário, era inconcebível. Foi-me dado o exemplo de Israel, mas bem sei que há muitos outros, muitos outros países de igual dignidade.

Quanto ao Brasil, parece-me estar de férias. O Brasil está de férias há mais ou menos 500 anos, desde sua fundação. E quanto ao brasileiro? O brasileiro é um feriado.

Olho de peixe morto, cheiro de peixe morto

Algum tempo atrás fui apresentado ao humor do programa “Porta dos Fundos”. Passado o primeiro minuto de vídeo, concluo: – Militância. Não é humor, é militância. Pouco tempo depois deparo-me com um texto do senhor Gregório Duvivier que mais parecia ter saído de uma faculdade publica do país, no sentido de que era praticamente um manifesto comunista para leigos. “Batata!” – exclamei, satisfeito. Meus dedos coçaram. Saí a escrever, debulhando o texto do sujeito, desmascarando-o, pensava eu.

Ora, à época ele não havia se assumido como porta voz da juventude vermelha do país, de modo que meu protesto soou como paranoia persecutória: – “Você não tem senso de humor, Miceli, não tem senso de humor!”, diziam-me, meneando a cabeça em tom de reprovação. E havia também os que me repreendiam, aviltados: – “É o novo prodígio do humor brasileiro! A juventude o adora!” (90% do que a juventude adora, não presta. Mas eu não iria entrar nesses méritos)

Calei-me. Vieram as eleições. Ele, tomando partido de candidata Dilma Rousseff. Se ainda havia alguma duvida do viés ideológico das atividades do rapaz, as duvidas haviam acabado. Mas eu estava calado. Ultimamente vejo pulular posts sobre o sujeito. Declarações do sujeito. Videos. Escárnios. Provocações. Mas, estranhamente, não me surge nenhum impeto de comentar a respeito. Não me ocorre comentar uma palavra.

No entanto, no momento surgiu-me a necessidade curiosa de fazer um comentário estético. Sim, estético. Gregório Duvivier tem olhos de “peixe morto”. Todos já devem ter ouvido a expressão: – “Aquele sujeito tem olho de peixe morto”. No caso dele, particularmente, os olhos ainda transmitem-me um cinismo obsceno. É um olhar de peixe morto, de cinismo obsceno. Ah, há também o cheiro; cheiro de peixe morto. Desde o primeiro contato que tive com o menino vermelho, fedeu.

Nasce Otavinho

Venho precaver meus caros amigos: -Citar conhecidos em sua timeline do Facebook é atividade perigosa. Ainda ontem, citei meu glorioso amigo Otávio (não é Otávio, mas escrevo Otávio) e já hoje meu telefone toca, insistentemente. É noite. Atendo, contrariado. É Otávio.

– Miceli?
– Sim.
– O que andou escrevendo em sua timeline do Facebook?
– Escrevo muitas coisas em minha timeline do Facebook.
– Quem é Otavinho? (percebe o meu silêncio e continua, como que numa especificação) – O que pulou como uma lebre para o ônibus…
– Pulou como uma lebre…
– Pulei rápido.
– Foi o que eu quis dizer…
– Se eu soubesse que transcreveria o que digo, sem autorização, não diria-lhe mais nada, nunca mais.
– Fala do “Homem-semeador”, da “Mulher que cultiva”?
– Sim. Falo de minha filosofia.
– Sua filosofia?
– Sim.
(Fez-se silêncio) – Está certo. Vou apagar.
– Não apague.
– Não?
– Não. (pausou e continuou) – Deixarei você atuar na clandestinidade.
– Clandestinidade?
– Sim. Sempre que houver um rompante filosófico de minha parte, mesmo não tendo permissão para transcrever, transcreverá mesmo assim.
– …
– A partir de hoje, serei Otavinho.

Fez-se um silêncio. Havia desligado. Devolvi o telefone ao gancho, atônito. Levantei-me da poltrona lentamente e tomei o caminho do corredor. Logo veio-me uma célebre frase do glorioso Nelson Rodrigues.  Pensei: – Coitado de meu prezado amigo Otávio… O fracasso subiu-lhe a cabeça.