Midrashê Shabat IV

“Vocês ouviram o que foi dito; ‘não cometerás adultério’. Eu, porém, vos digo: – Todo aquele que olhar para uma mulher para deseja-la, já cometeu adultério com ela em seu coração”

(Está aí um preceito que me fará prevaricar eternamente)

Bom, o Midrashê Shabat de hoje será bem humorado. Mas citarei conceitos interessantes da Mística Judaica, expostos no Zohar (“Esplendor”, em Hebraico), livro referência da mistica judaica desde que apareceu, na Espanha, no século XIII. Alguns atribuem o texto a datas ainda mais antigas, remontando a um dos mais proeminentes sábios Judeus, Shimon Bar Yochai, o que daria ao texto a idade de aproximadamente 2000 anos.

Mas não falaremos aqui sobre o Zohar e sim sobre o dito selecionado. Ele está no Livro de Mateus, Capítulo 5, versículo 27, e é todo ele construído sobre o preceito exposto na Torá, livro Shemot, Capitulo 20 versículo 14 que nos diz: – “Não cometerás adultério”

Jesus aprofunda o sentido para além do simples ato de adulterar, fala mesmo do fato de alimentar um desejo equivocado. E nisso ele segue o Livro de Eclesiástico (que não faz parte do Cânon da Bíblia Hebraica, mas os sábios do Talmud conservam seu testemunho. Alias, o próprio livro foi todo ele escrito em Hebraico) Eclesiástico capítulo 9, versículo 5, nos diz: –“Não fites uma jovem para não ser pego na armadilha quando ela espiar”

(Definitivamente, minha danação será completa)

Vamos ao conceito interessante que realmente motivou este Midrash. É o conceito de ação em outras esferas, bem como o conceito de tempo e sua utilidade, nossas limitações e sua necessidade. O Zohar nos diz que em outras esferas não há pontes entre o pensar e o agir. Que este não seria um processo “quebrado” e descontinuo como é em nossa Realidade, e que por isso nestas outras esferas, não é permitido pensamentos e  desejos equivocados; estes se realizariam, logo que surgissem. Por isto nossas limitações vieram a calhar, ensinam os sábios. Você pode pensar em algo realmente péssimo, e até mesmo deseja-lo, mas entre o pensar e o agir há uma ponte, onde outros sentimentos e o refrear de sua consciência agem. Mesmo quando não há consciência ou quando esta não é suficiente para refreá-lo, uma simples limitação de não poder fazer o que quer, uma simples impossibilidade prática, impede-o de fazer um grande mal.

Por este motivo Jesus cita o infortúnio daquele que é rico. Não há na riqueza, em si, mal algum. Grandes Patriarcas do povo Judeu foram extremamente ricos (Cito os três proeminentes: Abraão, Isaac e Jacó, apenas para ilustrar, mas há muitos outros) O problema é que aquele que é rico tem condições de fazer tudo o que deseja neste mundo. Portanto, se seus desejos forem maus, ele infalivelmente realizará todos, causando grandes danos para si e para os outros. No mais, o possuir riquezas não apenas realiza facilmente os maus desejos que você possui, mas traz também consigo muitos outros, sem contar a cobiça e a inveja que você tem de enfrentar por ter o que os outros não tem, e toda a tribulação que é manter uma riqueza grandiosa. De fato, o rico vive para o dinheiro e morre pelo dinheiro, e tendo em vista que ele não será capaz de levar nada do que juntou consigo, trabalhou no que não poderá possuir.

Em suma: – Nossas limitações e nossa descontinuidade entre o pensar, falar e agir são, na verdade, uma grande dádiva. Pois, com nossas inclinações completamente erradas, se nos fosse permitido, faríamos ainda mais mal do que já fazemos (se é que isso é possível), mesmo com todos os entraves e freios.

Segundo o Zohar, assim também funciona o tempo. Além de trabalhar conjuntamente para esta criação de uma ponte entre o pensar, o falar e o agir – entre o Intencionar e o Realizar – o tempo serviria de importante meio de restituição. O tempo tudo encerra neste mundo; tanto ciclos virtuosos como viciosos são encerrados e um novo ciclo tem inicio. Portanto, você, nesta esfera, não ficará preso indefinidamente em um ou em outro ciclo. O fato de agir com correção até os 49 anos não o impede de cometer um grande mal aos 50 anos. E o fato de ter feito coisas más até os 49 anos não o impede de despertar, de alguma forma, aos 50 anos.

Este mundo não foi instituído sobre o valor da Justiça, dizem os sábios. Se assim fosse, não sobraria um ser humano sequer. Foi sim instituído por Misericórdia, para a correção das inclinações deturpadas, e neste quadro tanto as limitações do corpo quanto o passar do tempo (que faz morrer velhos ciclos e faz viver outros novos) são grandes atos de misericórdia de D’us.

Tudo isto foi exposto para mostrar que o dito de Jesus não se trata de puritanismo moral nem nada que o valha, está aí seguindo um principio “místico” profundo. Ainda que você evite o adultério por suas implicações morais e sociais, ou não o faça pela simples falta de oportunidade de faze-lo, a sua inclinação, o seu desejo ao fitar a mulher com maus olhos, ainda é mau e ainda não foi corrigido. Deste modo você não estará apto a gozar de suas faculdades completas e livrar-se de seus entraves e limitações, pois só estes te abstém de fazer o mal. São, portanto, necessários a você.

Não são dadas grandes possibilidades a quem tem pouca responsabilidade.

Midrashê Shabat III

“Pois a todo aquele que tem, será dado mais, e este terá em grande quantidade. Mas àquele que não tem, até o que pensa ter lhe será tirado”.

Este dito de Jesus está preservado no livro de Mateus, Capítulo 25, versículo 29. O Evangelista o colocou logo após a “Parábola dos Talentos”, o que, para o leitor desavisado (ou simplesmente superficial) pode causar alguma confusão. Neste dito, Jesus não está se referindo à prosperidade material. As Parábolas são alusões a Princípios Espirituais através de uma linguagem figurada. Do contrário, não seriam Parábolas e sim sentenças literais. (digo aqui o óbvio ululante)

Vejam bem: – Sou vacilante em começar um texto com o óbvio ululante, mas o que vejo de Teólogos da Prosperidade utilizando-se desta parábola para dizer que “Deus gosta daquele que prospera” é uma absurdidade monumental. Enfim; vamos ao terceiro texto do Midrashê Shabat.

É preciso conhecer basicamente a constituição humana segundo o Judaísmo, para melhor compreendermos os ditos de Jesus. E como esta sessão semanal é única e exclusivamente sobre ditos de Jesus, é necessário que estes conceitos comecem a ser expostos, ainda que brevemente e a grosso modo (uma descrição meticulosa levaria páginas e a paciência de quem lê)

Basicamente, para o Judaísmo, a constituição do homem é a seguinte:

Corpo – Alma – Espírito de D’us

Há diferentes gradações da alma, diferentes níveis de consciência que são despertados pela presença do Espirito de D’us, mas se fossemos abordar todas as visões, seja do Judaísmo tradicional ou do Misticismo Judaico, o texto não terminaria. O importante a considerar é o seguinte: – O Espírito de D’us habita em todos os Homens. Ele é o “sopro da vida”, sem o qual nenhuma alma estaria viva, e por conseguinte, nenhum corpo. Por isto mesmo Jesus diz: – “A carne para nada serve, o Espírito é que vivifica.” (João 6.63)

A alma é vista apenas como um recipiente, no qual o Espírito de D’us habita. A problemática é que não só o Espírito incide sobre a alma, mas também as necessidades do corpo, chamadas no Judaísmo de Yetser Hará (Inclinação para o mal) Na verdade, esta última tem poder quase que hegemônico sobre a alma, de modo que ela fica presa às demandas do corpo, sem condições de acessar o Espírito. Por isso, todos os preceitos contidos na Torá são para abrandar os impulsos do corpo, para quebranta-lo e torna-lo submisso ao Espirito. (Se perceberem bem, toda grande tradição religiosa diz o mesmo, malgrado nomenclaturas distintas e métodos diferentes)

Então surge a válida – e talvez necessária – pergunta: – “Ora, porque D’us criaria um ser tão deficiente, que é puxado para os dois lados?”

Na verdade não foi assim desde o Princípio. Tudo isto se deu a partir da “queda” de Adão. Mas este é um assunto também extenso e falarei sobre ele, especificamente, na próxima semana. Agora vamos retornar ao dito de Jesus: – “Pois a todo aquele que tem, será dado mais, e este terá em grande quantidade. Mas àquele que não tem, até o que pensa ter lhe será tirado.” (Mateus 25.29)

Como foi dito, toda alma contém em si o sopro da Vida, o Espírito de D’us. Isto é dado ao Homem e habita em sua alma. Se você se tornar consciente desta parte que te constitui como ser Humano e manifesta-la, a sua alma, o seu “recipiente”, estará apto a ser preenchido pelo Espírito. Por isso: – “Todo aquele que tem, receberá mais, e terá em grande quantidade”. Já aquele que não tem esta consciência, que só responde aos instintos e estímulos do corpo, tem sua alma definitivamente sufocada por este. Assim que o sopro da vida se extingue, a alma morre junto com o corpo. “Mas àquele que não tem, até o que pensa ter lhe será tirado.” Em outras palavras: – Até esta vida, esta mesmo que você vive e pensa ser sua, ser-lhe-á tomada.

Jesus trata da mesma questão em outro dito que, para os leitores literais, se referiria apenas a uma qualidade moral de honestidade, mas na verdade fala sobre esta questão do pequeno sopro de vida que lhe é dado: – “Quem é fiel no pouco, é fiel também no muito. Pois se não fostes fieis com o bem alheio, quem vos dará o vosso?”

Se você não reconhece que a Vida é o bem maior que você possui e que esta foi dada a você, se não desperta para a Realidade óbvia que a vida não lhe pertence e não habita em seu corpo – pois este é “Pó e para o Pó retornará” -, como quer alcançar a verdadeira Vida, ter a sua própria, ter poder sobre sua própria e verdadeira Vida? “Se não fostes fieis com o bem alheio, quem vos dará o vosso?” Se não fez jus àquilo que te foi dado, não terá mesmo nada.

Midrashê Shabat II

“Não deem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; Do contrário, estes as pisarão, e aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão.” (Mateus 7.6)

Este é um dito pouco lembrado por soi disant Cristãos, e por isso mesmo o escolhi para um segundo texto do Midrashê Shabat. Ele encontra paralelo em Shemot, segundo livro da Torá, que nos diz: – “Comerão do que foi servido para fazer expiação, quando da sua investidura e consagração. Nenhum profano comerá disto, pois são coisas sagradas” (Exodo 29.33)

Por todo lado, vejo padres, pastores, espíritas, filósofos, gurus de autoajuda – o diabo – falando do “Amor Universal de Cristo”. Vou explicar aqui o motivo pelo qual este conceito é estranho ao próprio ensinamento de Jesus (tal como exposto nos evangelhos) e o motivo pelo qual este conceito fantasticamente elástico levou a auto-destruição corrosiva do Cristianismo, e por consequência, do próprio Ocidente.

Toda a Escritura Sagrada e todo o Ensinamento de Jesus demarca claramente a linha entre o Sagrado e o Profano, O Espírito e a Carne, o Justo e o Injusto, o Pio e o Ímpio. É justamente esta atribuição de um valor absoluto, esta demarcação de território do que é correto, do caminho reto, que é capaz de instruir o sujeito que busca o conhecimento. Se você retira a capacidade de diferenciação, e junta todas as coisas numa pasta homogênea e sem valor, ora, então o seu conhecimento é nenhum e suas diretrizes não existem.

“Deixe-me aqui escolher entre a letra A e a letra A” Não é preciso ser nenhum gênio para saber que isso não existe. E também não é preciso ser nenhum gênio para notar a presença do Mal declarado e ostensivo no mundo.

Durante décadas ou até mesmo séculos tentou-se amenizar o Mal no mundo como que dando-lhe motivações nobres: – “Veja bem; O sujeito só estuprou, matou e degolou, porque era revoltado! Foi maltratado pelos pais! Se não pelos pais, pelos amiguinhos da escola! Se não pelos amiguinhos da escola, pelos colegas de trabalho! Se não pelos colegas de trabalho, é porque não tinha um trabalho! Enfim, há motivo, você só não sabe! Não julgueis!”

Isto é de uma patifaria escandalosa, e com todo o respeito aos bem intencionados, só um idiota cai numa pataquada destas. O sujeito que é ruim é ruim é ponto final. Ele não precisa de motivos. Quantas pessoas nascem em berço de ouro, tem tudo o que um homem poderia querer e ainda assim fazem o mal pelo simples prazer em faze-lo? E quantas pessoas nascem com mil necessidades e ainda encontram formas de fazer o bem e ajudar o seu irmão? Como esta “Filosofia da Patifaria”, de justificar o injustificável, pode se sustentar diante de uma Realidade desta?

Não pode, evidentemente. É um engodo puro e simples. Seu único objetivo é retirar das pessoas a capacidade de juízo, de discriminar e identificar o Mal como Mal, de evita-lo, de extirpar-lo. Alias, por todo lugar, nas Escrituras sagradas, está escrito:- “Extirpem o Mal do meio de Vós” Adiante de muitos preceitos, está lá o “Extirpem o Mal do meio de Vós”

Já a nossa Cultura pretensamente baseada nas Escrituras diz: – “Não há mal nenhum, está todo mundo unido e feliz. E se alguém fizer uma maldade que salte absurda aos seus olhos, não se escandalize! A pessoa certamente teve um bom motivo! Vamos acolhe-la!”

…Isso é demais para minha cabeça. Eu olho para o que está escrito e olho para o que ensinam, e não vejo como – absolutamente não vejo como podem estar pretensamente falando do mesmo assunto, dos mesmos ensinamentos e dos mesmos valores. É uma distância tão abissal e escandalosa que beira à loucura.

“Mas Miceli, pera lá! E o ‘Ame os seus inimigos’? Jesus disse ‘Amem seus inimigos e orem por aqueles que vos perseguem’, não disse?” Disse. Mas veja só: – Só por usar a palavra “inimigos”, já está admitindo que há, de fato, inimigos declarados e ostensivos. Que o mundo não é um mar de rosas, florido e de aroma inebriante onde todos abraçam-se e rolam deitados pelos campos.

E digo mais: Este ensinamento é para os discípulos não se deixarem contaminar com impulsos que os levariam a agir, em ultima analise, como os próprios inimigos.Jesus ensina isto quando diz: – “Aquele que se irar contra o seu irmão corre o risco de ser consumido pelo fogo”

Quando você odeia alguém e busca faze-lo mal, todos os seus pensamentos e sentimentos são movidos para aquilo. Você é consumido pelo fogo da Ira e nada mais tem a sua atenção e sua energia do que aquilo. Você é consumido pelo ódio e pelo desejo de vingança.

Portanto “Ame os seus inimigos, e ore por aqueles que o perseguem”; mantenha a sua Paz e não se deixe contaminar. Isto é bem diferente do que dizer que a conduta deles é amável ou sequer aprovável. Se fosse assim, não seriam chamados “Inimigos”.

“E o perdão ? E a misericórdia ?” Há perdão e há misericórdia para aqueles que desejam perdão e para aqueles que desejam misericórdia; para aqueles que buscam correção. Quem está dizendo isto? Miceli? Não. Jesus mesmo ensina quando nos diz: – “Se seu irmão pecar, repreende-o. E se ele se arrepender, perdoa-lhe.” (Lucas 17:3)

Está aí compactada a noção absoluta do que é uma transgressão, pois se não houvesse transgressão identificável e reconhecível, o que seria “pecar”? No mais, há o principal: – Note aí o uso do condicional; “E se ele se arrepender, perdoa-lhe”. Como perdoar um sujeito obstinado no erro, que em ultima análise não quer mesmo perdão algum? Como perdoar um sujeito se o que ele quer é perseverar no mal caminho, com suas iniquidades, e engolfa-lo no processo? Não se deixem levar por falácias; até mesmo os sentimentos mais nobres podem ser convertidos em seu inverso, quando devidamente manipulados.

Midrashê Shabat I

Como prometido no sábado anterior, colocarei aqui o primeiro texto da série Midrashê Shabat, onde amigos escolhem um dito de Jesus para que seja estudado e investigado, se possível relacionando-o com outros ditos do Nazareno e com as Escrituras Sagradas, a Torá dos Judeus (que corresponde ao nosso Pentateuco)

“Senhor Miceli, devo dizer que começou mal, pois sequer é sábado! Tome tento!”

Pera lá! Quando escrevi sobre o Shabat, semana passada, esqueci de ressaltar um detalhe importante: – Tem-se por Shabat o período desde o pôr do sol de sexta-feira, até o pôr do sol de sábado. Ou seja, tecnicamente, para nós, o Shabat começa as 18h de sexta-feira, e vai até as 18h de sábado. As 18h de sexta, os judeus fazem suas respectivas orações, recepcionando o Sábado com o acendimento de velas (pela matriarca do lar) dentre outras práticas.

Mas vamos ao dito do Nazareno que foi escolhido. A passagem sugerida para o primeiro Midrash, o primeiro estudo, está em Lucas, Capítulo 5, versículo 33-39:

“Ninguém retalha roupa nova para remendar roupa velha, pois inutilizará a roupa nova e a parte retirada não irá condizer com a roupa velha. Ninguém põe vinho novo em odres velhos, para que não arrebente. Põe-se antes, vinho novo em odres novos. Mas ninguém, após ter bebido vinho velho, quer do novo. Pois diz; O velho é que é bom!”

Este dito encontra paralelos no livro de Marcos, Capitulo 2 e Mateus, Capitulo 9.

“Mas, Miceli; Todos estes paralelos estão em Livros do Evangelho. E a Torá? Você não disse que tudo o que Jesus ensina está na Torá?”

Bom, na verdade não fui eu quem disse. Foi Jesus que disse. Mas vamos lá, debruçar-nos sobre o livro Vayk’rá (Levítico) e ver o ensinamento do mesmo Princípio: –

“Eu me voltarei para vós e vos farei crescer e multiplicar, e confirmarei minha Aliança convosco. Depois de vos terdes alimentado desta colheita, tereis ainda de jogar fora a antiga, para dar lugar à nova” (Levítico Capitulo 26, versículo 9.10)

O Princípio é: – Abandonar hábitos antigos, viciosos, para dar lugar a hábitos novos, virtuosos. No mais, há uma preocupação reincidente nos ditos de Jesus – e no Judaísmo em geral – para a prática do que é aprendido. Jesus diz ao fim do sermão no monte: – “Aquele que ouve minhas palavras e não as pratica é um insensato, que construiu sua casa sobre a areia. E ela cairá; E será grande a sua queda” O dito que citamos atua na mesma linha. Não se pode adquirir conhecimento novo, e recorta-lo, de modo que se encaixe a hábitos velhos, assim como “Ninguém retalha roupa nova para remendar a velha, pois inutilizará a veste nova”

Não há como você “pinçar” algo do novo conhecimento que seja de encaixe conveniente, e simplesmente descartar todo o resto, por ser de difícil aplicação. Tendo acesso a um conhecimento novo, não pode manter hábitos velhos. Pois, como Jesus diz: – “À quem muito é dado, muito é cobrado”

No entanto, Jesus termina o dito com assertiva curiosa: – “Mas ninguém, após ter bebido vinho velho, quer do novo. Pois diz; O velho é que é bom!”

Ora, todos sabem que o vinho é tido como bom e saboroso, quando é vinho velho, antigo e envelhecido pelos tempos. Assim também é o apelo de nosso hábitos; quanto mais antigos, quanto mais enraizados, mais “saborosos” e mais difíceis de serem abandonados. Assim são as tradições dos homens, e assim são os hábitos enraizados do individuo; saborosos e de difícil abandono.

Você se depara com conhecimento novo, e enxerga nele Verdade, mas os hábitos antigos estão tão enraizados que são difíceis de largar: modos de pensar, modo de responder a sentimentos, o praguejar e maldizer na fala, o agir impulsivamente… enfim; –  é um problema.

E é por isso que Jesus fala em “Nascer de novo”:

“Digo-lhes a Verdade: – Aquele que não nascer de novo, não pode ver o Reino de D’us. Pois aquele que nasceu da carne é carne. Aquele que nasceu do Espirito, é Espirito. O Espírito é que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que vos disse são Espírito e Vida”

Midrashê Shabat

“Lembra-te do dia do Sábado, para santifica-lo” Este é um preceito importantíssimo para os Judeus. Quem aqui nunca ouviu falar em Shabat? De fato, esta tradição de guardar o Sábado foi um importante fator unificante para os Judeus, dispersos por séculos pelo mundo, durante a diáspora. Há todo um conjunto de atividades próprias para um Shabat, bem como preceitos negativos; coisas que um Judeu não deve fazer, em respeito ao dia.

Dentre as atividades feitas, está a leitura semanal das Escrituras. Todo Sábado lê-se um trecho da Torá (que corresponde ao nosso Pentateuco; os cinco livros de Moisés), e a este trecho semanal lido chama-se Parashá. Ao fim de um ano, os judeus terminam a leitura dos cinco rolos, precisamente.

Curiosidades:

I – Shabat significa “descanso”. É curioso notar que, em muitas correntes de pensamento, “descanso” é visto como uma alusão a morte. Nesse sentido “Lembra-te do dia do descanso, para santifica-lo”, teria implicações muito mais profundas do que um simples dia da semana.

II – Este preceito corresponde ao quarto “Mandamento” ordenado por D’us no Decálogo (Conhecido popularmente como os 10 mandamentos dados a Moisés) Não se sabe bem – ou até se sabe – o motivo pelo qual as tradições Cristãs remanejaram os chamados “Mandamentos” e extirparam este preceito. O “remanejamento” é duplamente curioso se levarmos em conta o que Jesus disse:

“Não pensem que vim revogar a Lei de Moisés ou o testemunho dos profetas. Não vim revogar, mas dar-lhes pleno cumprimento. Digo-lhes a verdade; Enquanto existirem Céus e Terra, nenhuma só letra, nenhum só traço será omitido da Lei, até que tudo se cumpra. Aquele que violar um só desses mandamentos e ensinar os Homens a fazer o mesmo será chamado de menor no Reino dos Céus. Mas aquele que praticar, e ensinar estes mandamentos, será chamado de grande no Reino dos Céus.”

Vejam bem; este dito não está em nenhum manuscrito Cristão Apócrifo ou em algum registro Judaico. Está mesmo no Evangelho de Mateus ! (Capítulo 5, versículos 17-19) Este destoar lembra-me outra frase de Jesus, esta preservada em Lucas Capítulo 6 versículo 46: – “Por que me chamam ‘Senhor, Senhor!’, mas não fazem o que eu digo?”

– – –

Para aquele que quer se aproximar um pouco mais das Escrituras, em seu ambiente primeiro, genuíno, o adquirir uma Torá resolve. E vejam bem; é fácil. Hoje em dia é fácil adquirir uma Bíblia Hebraica, ou um livro da Torá, amplamente comentado. Nele a divisão em Parashot (plural de Parashá) já está feita, e você pode acompanhar as leituras semanais, a cada sábado, de modo a ir se familiarizando com os textos e com a visão Judaica original.

Mas para aqueles que guardam o testemunho de Jesus, há mesmo um vácuo. Bem sei que em Igrejas também há leituras semanais (isto aprendido dos Judeus), mas as interpretações dadas e o que é exposto, muitas vezes, estão por demais distantes do sentido original (com a tal Teologia da Libertação nas Igrejas Católicas e a Teologia da Prosperidade nas Igrejas Evangélicas, então; Valha-me D’us!) No mais, a grande maioria interessada sequer frequenta Igrejas. Alguns por desinteresse nas Instituições, alguns mesmos por decepção. Outros nem mesmo tomaram para ler os Evangelhos, e se conhecem um ou dois ditos do nazareno, é muito.

Pensando nisso, resolvi inaugurar aqui uma sessão aos sábados chamada “Midrashê Shabat“. Midrash significa “estudo” ou “investigar”, em Hebraico. Todo sábado, colocarei aqui um estudo sobre algum dito de mais difícil compreensão de Jesus, ou simplesmente um dito cujo sentindo transcenda as implicações morais, ou estejam, de alguma forma, intrincados com conceitos Judaicos fundamentais anteriores. Caso tenham algum dito em especial sobre o qual busquem compreensão mais profunda, alguma curiosidade ou duvida, façam-me saber!