Midrashê Shabat XI

“Não pensem que vim trazer paz na terra. Não vim trazer a paz, mas a espada. Pois vim para que o homem fique contra o seu Pai, a filha contra a sua Mãe e a nora contra sua sogra. Os inimigos do Homem serão os da sua própria família. Quem ama o seu Pai ou sua Mãe mais do que a mim não é digno de mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim. Quem não toma o seu fardo e não me segue, não é digno de mim. Quem preza por sua vida a perderá. E quem abre mão de sua vida, por minha causa, a encontrá.”

Este é um longo dito de Jesus, preservado no livro de Mateus , Capítulo 10, versículos 34 a 39, pouco lembrado e muito polêmico. À primeira vista, é um dito de difícil compreensão, causando até mesmo alguma relutância em reconhecer estas duras palavras como sendo daquele ao redor do qual criou-se uma imagem brilhantina de “paz e amor” universal. De fato, Jesus prega sobretudo o amor entre os irmãos. Mas sua concepção de amor e a concepção de amor entre os chamados “gentios” é completamente diferente. Segundo as próprias palavras de Jesus: – “Aquilo que é elevado para os homens, é abominável para D’us”

Mas vamos nos ater ao dito em questão; o debate sobre a real conotação de amor às vistas de Jesus exigiria um outro estudo em separado. A ideia que o dito selecionado encerra, apesar de dura, é na verdade muito simples: – Aquele que conhece de fato os ensinamentos de Jesus e busca segui-los – não verborragicamente mas na prática – enfrenta mil e uma dificuldades e inadequações, inclusive dentro da própria família. Isto ocorre justamente pelo dito relembrado acima: – “Aquilo que é elevado para os homens, é abominável para D’us”. A grande maioria das pessoas vive de acordo com o senso comum de sua época; vive os costumes vigentes. Estão apegados à tradições antigas ou a novíssimas modas que não necessariamente condizem com as praticas incentivadas por Jesus. Muito pelo contrário: – Geralmente um cristão, ou um judeu que reconheceu Yeshua (Jesus) como Messias (como é o caso dos Ebionitas, que guardam as Leis de Moshe (Moisés) e o testemunho de Yeshua) vão na contramão da grande maioria das tendências.

Além deste confronto entre a nova mensagem aprendida e toda uma tradição da comunidade, há ainda os conflitos internos familiares, tão peculiares e tão bem conhecidos. É sabida a importância de uma casa em que todos tenham uma relação harmoniosa. Como o próprio Jesus diz: – “Uma casa dividida não prevalecerá”. Mas também é sabido que muitas vezes os piores conflitos que encerram a vida de um indivíduo vem de seu próprio ambiente familiar: Um mau relacionamento com o Pai, com a Mãe, com um filho, com uma filha, com irmãos, etc., etc. De algum modo, nós somos lapidados pelo meio familiar em que vivemos, e muitas vezes o sujeito afoga-se neste conturbado meio, não conseguindo sequer nascer para o mundo. De fato, isto é muito comum especialmente nos dias atuais: – O sujeito perde-se e é dragado pelo caos familiar antes mesmo de sair para o Mundo e viver sua própria vida.

Há também um outro dito de Jesus relacionado a toda esta problemática: – “Só em sua própria terra; em sua própria casa o Profeta não tem honra”. Jesus mesmo foi desacreditado por irmãos, parentes, amigos próximos, não conseguindo inclusive obter êxito entre os seus mais chegados; na comunidade local. Todos viam o Homem crescido e amadurecido, realizando sinais e encerrando grande sabedoria, mas não conseguiam atribuir toda aquela pujança espiritual ao pequeno rapaz que havia crescido ali nas redondezas, diante de seus olhos (vide Mateus, Capítulo 13, versículos 53 a 57 e outros trechos) Muitas vezes isto ocorre também conosco: Seja por incredulidade, desconfiança ou até mesmo por uma especie de ciumes ou inveja, aquele que está próximo não reconhece seu crescimento e seu valor, e você colhe o fruto de realizações com pessoas distantes, recém chegadas ao seu convívio. – “Só em sua própria casa, em sua própria terra é que o profeta não tem honra”

A frase que encerra o longo dito selecionado neste Midrashê Shabat XI talvez seja a fundamental e de maior importância: – “Quem preza por sua vida a perderá. E quem abre mão de sua vida, por minha causa, a encontrá.” Tudo que foi dito, foi dito no âmbito geral; de tradições, crenças e hábitos de uma comunidade. Também tradições, crenças e hábitos familiares, etc., etc. Mas estas influências, evidentemente, incidem sobre o homem individual. Geralmente o Homem constrói sua personalidade com base nestes elementos, de modo que não reconheceria a si mesmo de outra forma: – Uma mudança de hábitos, de uma maneira de pensar, seria praticamente uma despersonalização. E, de fato, sob certos aspectos, é mesmo. É impossível você mudar verdadeiramente sua forma de pensar e isto não se refletir nos seus hábitos diários, bem como em suas áreas de interesse. Não há como se dar uma mudança parcial, superficial, pois neste caso não há de fato uma mudança substantiva e real; haveria apenas um arranjo mentiroso, um inútil subterfúgio.

Portanto, quem valoriza por demais a própria vida tal como ela é no momento, apegados a modos de sentir, pensar e agir já pré-estabelecidos, dificilmente estará aberto à mudanças, de modo que suas reflexões – se feitas – dificilmente terão implicações práticas. Já aquele que busca sinceramente a Verdade, acima de toda e qualquer disposição pré-concebida, está pronto para rearranjar-se, para corrigir-se se necessário, e, no caso do quinhão ofertado por Jesus, conquista-lo merecidamente conhecendo então e finalmente a verdadeira Vida.

Midrashê Shabat X

– Tu te negas a responder-me? Não sabes que eu tenho autoridade para liberta-lo e poder para condena-lo?
– Não terias poder algum sobre mim se este não te fosse dado de cima.

Este é um pequeno diálogo entre Pôncio Pilatos, prefeito Romano da província da Judeia e Jesus, profeta judeu da Galileia, pouco antes do veredicto de sua condenação. Nele conferimos esta assertiva contundente na resposta de Jesus; de que todo e qualquer posição de poder é dada e retirada do Homem de acordo com a vontade de D’us. Tal ideia já estava explicitada no livro Tehilim, Salmo número 62, versículo 11, que nos diz:

“Uma vez declarou D’us e duas vezes eu ouvi: – Todo o poder pertence a D’us”

Poder-se-ia então perguntar: – “Ora, se Pilatos ocupava posto elevado e tinha poder de decisão sobre Judeus e sobre Jesus por permissão divina, por que estaria dando D’us esta permissão? Por que por o próprio povo sob julgo dos Romanos e entregar o seu Messias a humilhação e condenação?” Bom, evidentemente esta pergunta não é simples, de modo que uma resposta simples seria difícil. De todo modo, vale considerar alguns pontos:

I – A vinda do Messias já estava prescrita na Torá (Pentateuco, na nomenclatura Cristã) bem como e principalmente nos Neviim (testemunho dos profetas), de modo que a vinda de um Messias sofredor, que serviria de expiação para os pecados do povo Judeu já era aguardada. Toda a discussão entre aqueles que aceitaram Jesus como Messias e aqueles que negaram é justamente esta: – Se o nazareno era o Messias que havia de vir ou não.

II – A importância da morte de Jesus tem uma relevância muito profunda e está totalmente relacionada ao “sacrifício do cordeiro sem defeito” prescrito na Lei de Moisés, e a necessidade do derramamento de sangue deu-se por seu poder expiatório. No livro Vaicrá (Levítico), lemos esta noção de que o sangue faz expiação pela vida:

“Porque a vida da carne está no sangue. E esse sangue Eu o tenho dado a vós, para cumprirdes o ritual de expiação sobre o altar, pelas vossas vidas; pois é o sangue que faz expiação pela vida.”

Há esta noção de que os maus atos atraem sobre si a morte (já que nada vil pode subsistir em um mundo Justo e bom) Por suas transgressões, os homens acumulam sobre si dividas a serem pagas com seu próprio sangue, pois por sua vileza e seus maus atos, não poderiam permanecer no Mundo. Por este motivo, Judeus praticavam sacrifícios com sangue animal, para que a culpa recaísse sobre este sangue e para que eles próprios não morressem. Com o advento do Messias e do pagamento definitivo de nossas dívidas pelo imenso poder de seu sangue incorrupto, estes sacrifícios antes praticados no Templo já não são mais necessários.

III – O próprio Jesus tinha plena consciência de que, após um período de ensinamentos e conscientização dos seus irmãos do povo de Israel, bem como a preparação de discípulos que levariam seu testemunho pelo mundo afora, ele terminaria por ser sacrificado em Jerusalém, pois este eram os desígnios divinos e era necessário que assim fosse para que as Escrituras fossem cumpridas.

É curioso notar que até mesmo Caifás, sumo-sacerdote à época da execução de Jesus que geralmente é visto com maus olhos pelos Cristãos, parece ter perfeitamente em mente e de modo claro toda a importância salvífica do sacrifício do profeta. Ele diz, em uma reunião no Sinédrio:

“Vós falais do que não compreendeis (…) é do vosso interesse que morra um só homem pelo povo, e não pereça toda a nação.”

O evangelista conclui, como que destacando a divina inspiração deste insight por parte do sumo-sacerdote:

“(…) Ele não revelou isso de si mesmo, mas sendo o sumo-sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus morreria pelo povo de Israel. E não somente por aquela nação, mas também para congregar em um só povo os filhos de D’us que andam espalhados pelo mundo”

Em suma: – As Escrituras prediziam, Jesus tinha a consciência desta necessidade, e os sábios judeus reconheceram que assim deveria ser feito. Repetindo as palavras de Caifás: – “É necessário que um só homem morra pelo povo e não pereça toda a nação”

Esclarecido tudo isto de forma resumida e diria até corrida (porém, espero eu, não insuficiente) retornaremos à ideia essencial do dito de Jesus em si: “Não terias poder algum sobre mim se este não te fosse dado de cima.” Nenhum posto deste mundo é ocupado indevidamente. Diante disto pode surgir a objeção: – “E quanto a governantes injustos, corruptos? E quanto a líderes que oprimem o povo?” Bom, geralmente o povo faz por merecer. Observando-se bem uma questão como esta, nota-se muitas vezes que o líder apenas reflete a disposição geral de um povo. De modo que um povo corrupto, não raro, tem um governante corrupto acima de si.

Midrashê Shabat IX

“Os olhos são a candeia do corpo. Se seus olhos forem bons, você inteiro será bom. Mas se seus olhos forem ruins, você inteiro será ruim. Pois se a luz que ilumina o seu corpo forem trevas, ele estará em completa escuridão.”

O Midrashê Shabat IX se debruçará sobre este dito preservado no Evangelho de Mateus, Capítulo 6, versículo versículos 22, 23. Como sempre procuro fazer nesta série de textos acerca dos ensinamento de Jesus, busco referências de seus ditos em passagens do Tanach e principalmente e mais precisamente da Torá. Neste caso, abrimos o livro de Devarim (Deuterônomio), Capítulo 15 versículo 9, e lemos:

“Fica atento a ti mesmo, para que não surja em teu coração um pensamento vil e seu olho se torne mau para com teu irmão”

O dito de Jesus deixa claro: – O modo como você enxerga a vida determinará como será a sua vida. Isto não quer dizer que não haja uma Realidade exterior, independente do seu pensamento. Evidentemente há uma Realidade comum a todos, que se impõe independentemente do que qualquer um dos 7 bilhões de indivíduos existentes no mundo pensem a respeito dela. Mas, vivendo num Mundo dual, onde toda parte tem sua contraparte, enxergar algo bom ou algo ruim num acontecimento, suas mazelas ou suas benesses, é uma questão de perspectiva, de escolha pessoal.

Diferentes indivíduos podem absorver diferentes impressões de uma mesma experiência. Jesus nos diz para nos atermos aos bons aspectos, a ver o Todo com bons olhos e assim estar aberto ao que há de bom no Mundo. Adotando uma atitude pessimista, negativa, lançando seus maus olhos sobre pessoas e fatos, você invariavelmente retirará o pior delas; – procurando pelo pior, você encontrará o pior. Por isto a Torá salienta “Fica atento a ti mesmo, para que não surja em teu coração um pensamento vil e seu olho se torne mau para com teu irmão” e Jesus confirma “Pois se a luz que ilumina o seu corpo forem trevas, ele estará em completa escuridão.”

No livro Eclesiástico, que não consta no Cânon da Bíblia Hebraica mas foi todo ele escrito em Hebraico, tendo inclusive sua tradição mantida no Talmud, há ainda a passagem: – “Com inveja, o olho do avaro se fixa no pão, e na sua mesa há penúria”. Notem que, assim como a Torá, o autor de Eclesiástico diz o pensamento condicionar a visão. Aquela nos diz “não surja em teu coração um pensamento vil e seu olho se torne mal”; este nos diz “Com inveja, o olho avaro…”. Os seus pensamentos determinam o funcionamento que seus olhos terão. E o funcionamento dos teus olhos determina o que você extrairá do Mundo. – “Se seus olhos forem bons, você inteiro será bom. Mas se seus olhos forem ruins, você inteiro será ruim”

Tratemos então de tudo enxergar com bons olhos, especialmente aqueles que estão próximos a nós. Pois certamente procurando defeitos encontraremos defeitos; procurando virtudes encontraremos virtudes. Olhar o teu irmão com bons olhos é o primeiro passo do amor ao próximo, e como um bom olho ou um mau olho dependem de um bom pensamento ou um mau pensamento, pense bem.

Midrashê Shabat VIII

“O que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, disse: – ‘Filho, vai trabalhar hoje na vinha’. Ele respondeu: – ‘Não quero’. Mas depois, tocado pelo arrependimento, foi. Dirigindo-se ao segundo, disse a mesma coisa. Este respondeu: – “Eu irei, senhor”; mas não foi. Qual dos dois realizou a vontade do pai? Responderam-lhe: – ‘O primeiro'”

Esta exposição feita por Jesus é popularmente conhecida como “Parábola dos dois filhos”. Está registrada no livro de Mateus, Capítulo 21, versículos 28 a 32. Nela, Jesus aborda um tema de suma importância para o Judaísmo: – A prática. O primeiro filho, apesar do discurso negativo, apesar de sua má vontade inicial, pelo arrependimento, termina por fazer o que o Pai ordenou. O segundo, apesar de receber a ordem com aparente animo e boa vontade, termina por não fazer o que foi ordenado, não fazendo assim a vontade do Pai. Evidentemente, o primeiro é exaltado.

Para facilitar o estudo desta passagem, poderíamos delinear – grosso modo – três níveis de atuação consciente do ser humano: – Pensamentos, palavras e ações. Jesus aborda a correção de todos estes níveis, mas deixa claro que o alicerce fundamental e também a finalidade última de todas as correções é a prática; ter ações concretas condizentes com suas corrigidas inclinações; condizentes com a vontade do Pai.

Vemos este apelo também na seguinte passagem, o encerramento do conhecido Sermão do Monte: – “Aquele que ouve as minhas palavras e as pratica, é como um homem sensato, que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, mas ela não caiu, porque tinha seus alicerces na rocha. Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as pratica, é como um insensato, que construiu sua casa sobre areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu, e foi grande a sua queda.” (Mateus 7.24-27)

Muitas vezes a pessoa que busca a correção, busca uma mudança, o faz com real entusiasmo por instruções, e as recebe com alegria e verdadeiras boas intenções. Assim como o segundo filho da Parábola Inicial, ele diz “Sim senhor” para tudo o que ouve, mas por algum motivo, termina por fazer algo diametralmente oposto do que lhe foi dito. Este seria, também, o “insensato”, citado na passagem acima. É aquele que ouve, aquele que recebe atentamente as instruções e até as guarda, mas não tem a firmeza de pô-las em prática. Acossado por intempéries da vida, todo este castelo de instruções, se não firmados no solo, se não fincados na sua rotina por práticas condizentes, termina por ruir estrondosamente.

Por outro lado, há pessoas resistentes ao aprendizado. Há pessoas que vivem combatendo suas próprias inclinações interiores, que tem estímulos e impulsos difíceis de serem administrados, e que muitas vezes vivem num turbilhão de pensamentos (nem todos adequados) além de não terem um discurso linear. No entanto, há algo, há uma intuição interior, há sensibilidade, há uma consciência que o impele a corrigir-se; que faz com que, por fim, ele termine fazendo a coisa certa. Seja por uma reflexão consciente, por arrependimento, por um “senso de dever” sempre presente, no final, ele faz o que tem que ser feito.

Evidentemente, o ideal é alinhar todas os seus níveis de atuação consciente: – É corrigir impulsos e pensamentos (sendo este o estágio final da correção pessoal, como exposto no Midrashê Shabat IV), corrigir seu discurso, suas palavras, e ter atos concretos corretos. Porém, muito dificilmente o Homem consegue estar plenamente alinhado e – excetuando-se os grandes mestres e santos – a ocorrência de um mal pensamento ou de uma palavra infeliz é praticamente inevitável. No entanto, neste mundo, as ações são as que acarretam as maiores consequências. Elas são o resultado final deste caminho: – Pensamento – Palavra – Ação, e são elas que realmente delineiam sua História.

Muitos tem auto-conceitos excelentes de si mesmos, em pensamento. Muitos tem excelente discursos, digno de grandes santos. Porém, quantos realmente agem de acordo? Muitas vezes, uma pessoa aparentemente “desalinhada”, é capaz de ações imensamente mais nobres do que estas. Por isso mesmo Jesus encerra a Parábola com o seguinte dito: – “Em verdade vos digo: – Muitos gentios e pecadores precederão os falsos observantes no Reino dos Céus”

Midrashê Shabat VII

Meu amigos, após mil anos tentando retomar a série Midrashê Shabat, eis que finalmente consigo. Para quem não a conhece (ou ao menos não a conhece pelo nome), esta é uma série de textos publicados as sextas ou sábados (correspondendo ao Shabat dos Judeus) onde faço uma interpretação de ditos de Jesus sob uma ótica Judaica. Traço paralelos entre os ditos e as Escrituras e, não raro, utilizo até mesmo de material apócrifo (quando este está em concordância e serve de forma suplementar)

Há 7 textos da série (o de apresentação em que falo acerca do Shabat, especificamente, e outros 6 sobre os ditos de Jesus propriamente) e todos podem ser acessados no site cujo link vai abaixo. Vamos aqui então para o oitavo texto da série, o sétimo texto sobre os ditos. O versículo sugerido por um leitor e que será matéria de estudo neste texto não é um dito próprio de Jesus, mas uma referência feita a Jesus por seu predecessor João Batista, em termos mais ou menos esotéricos como segue abaixo:

“O Machado já está posto à Raiz e toda arvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo.” (Lucas 3:9)

O dito de João parece bastante claro, autoexplicativo, e Jesus, de fato, assim como João, também utiliza-se desta imagem da Árvore e seus frutos para referir-se a uma pessoa e seus atos. Demonstra com isso – dentre outras coisas – que a pessoa é reconhecida por seus atos, assim como a árvore é conhecida por seus frutos. Que uma boa pessoa não poderia cometer más ações, assim como uma árvore boa não produz frutos podres, e uma pessoa ruim invariavelmente cometerá atos ruins, pois uma arvore apodrecida não poderia produzir frutos bons.

De modo semelhante Jesus utiliza a analogia do bom tesouro e do mau tesouro (Lc 6.45) para demonstrar que o Homem cujo mal é frequente em sua boca (seja por lamúrias, por maldizer os outros etc., etc) retém um grande mal oculto em seu interior, pois “O Homem bom, do seu bom tesouro retira coisas boas e o Homem mau, do seu mau tesouro retira coisas más. Digo-lhes que a boca fala daquilo que está cheio o coração”

Mas o motivo da escolha deste dito de João Batista não está no uso desta analogia didática usada por ele e também muito usada por Jesus, pois, como vimos, é de fácil e simples compreensão. Escolhi o dito pela expressão “O machado já está posto à Raiz das arvores”; imagem utilizada por João para expressar a vinda de Cristo. Esta imagem contém um conceito profundo que é, inclusive, abordado e desenvolvido no Evangelho de Filipe.

É ensinado que, enquanto a raiz da árvore está escondida, ela brota, e cresce. Se no entanto a raiz é exposta, a arvore padece e seca. Assim é com a raiz de uma árvore, que está diante dos nossos olhos, que portanto nos é revelada, e assim também é com aquilo que nos é oculto, que não está diante de nossos olhos, e que portanto não nos é revelado.

Enquanto a raiz do Mal está escondida, ele permanece forte. Mas quando reconhecida, ele perece – quando é revelada, ele é extinto. O que é cortado brota outra vez, mas o machado penetra profundamente até trazer a raiz para fora. Jesus expôs inteiramente a raiz de todos os males, consequentemente arrancando-os e eliminando-os por completo. Cabe a nós cavar em busca da raiz do mal, identificar o mal enraizado em nosso interior, para de fato conhece-lo, revela-lo e então arranca-lo pela raiz. Quando você identifica o mal oculto, está “trazendo-o para fora”, “revelando-o à luz do dia”, e consequentemente matando-o.

Por outro lado, se o ignoramos, o Mal já enraizado em nosso interior continuará a produzir seus frutos. A tendência natural é que ele cresca e termine por nos dominar. Estaremos condicionados a reações muitas vezes inconscientes, que nos levam a dizer palavras e cometer atos que nós mesmos não compreendemos inteiramente e que, não raro, vão contra nossa própria vontade. Quantas vezes você pretendeu agir de certo modo, reconheceu que tal caminho seria o melhor para você, mas simplesmente não conseguiu segui-lo por não conseguir controlar-se, terminando por fazer algo diametralmente oposto ao que havia pretendido? Temos a ilusão de ser inteiramente livres mas muitas vezes estamos apenas condicionados por pensamentos e vícios que mal identificamos e vivemos respondendo a estes estímulos somente. Por isto é dito que a Ignorância é a mãe de todos os males: – Enquanto o mal está em segredo, oculto em seu interior, permanece plenamente ativo, produzindo seus maus frutos.

Já a Verdade é o seu oposto: – Enquanto está em segredo, oculta em seu interior, repousa em si mesma; inativa. Mas quando é revelada e conhecida passa a ser louvada, pois é poderosa e da seus frutos em abundância, trazendo a verdadeira vida e liberdade. Cristo nos diz: – “Conheçam a verdade e se tornarão verdadeiramente livres” – A ignorância nos escraviza com sua miríade de vícios e atos inconscientes mas o estar plenamente consciente o torna Senhor de todos os seus atos.

Midrashê Shabat VI

No início de Outubro comecei uma série de textos intitulados Midrashê Shabat. Estes eram publicados todas as sextas-feiras, às vésperas do sábado, e eram como pequenos Midrashim (estudos, interpretações) acerca de ditos de Jesus; – selecionava algum dito enviado por um amigo que tivesse alguma duvida a respeito e o comentava. Com todo o alvoroço provocado pelos atentados em Paris, acabei por escrever por demais nas semanas seguintes acerca do Islã, bem como sobre a conivência Política Ocidental em relação a este, tendo a “Política Imigratória” como ponta de lança.

Pois bem, passado todo o rebuliço (e enfadado eu também destes assuntos) voltarei aqui à tradição das sextas-feiras, publicando mais um texto para a série dos Midrashim. O dito selecionado de hoje foi preservado no livro de Yochanam (João), capítulo 6, versículo 44, onde Jesus diz: – “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair.” A profundidade deste dito só é devidamente percebida quando tem-se em mente a assertiva de Shlomo (Salomão), que nos diz: – “O que está faltando não se pode contar.”

“Ok, Miceli, você tentou. Mas eu não vi nenhuma relação!”

Pera lá! “Quem tem pressa erra o caminho”, diz também Shlomo. Vamos com calma. A assertiva de Salomão é de uma profundidade e verdade estarrecedoras, embora compactadas em uma pequenina frase. Em outras palavras, seria algo como: – “Você não pode dar falta do que não conhece”. Um ouvido não treinado para ouvir não reconhece a beleza de uma melodia ou harmonia, portanto para ele a boa música passa desapercebida. Olhos não treinados para ver ignoram a beleza de traços precisos e não são capazes de discernir uma boa pintura. Uma mente não treinada para inteligir não reconhece a grandeza de nobres idéias. Uma alma que é morta não carece do Espírito de Vida de D’us.

É justamente isso que Jesus pretende dizer com: – “Ninguém pode vir a mim se o Pai não o atrair”: – A menos que a alma seja acesa pelo Espírito de D’us, ela não será capaz de reconhecer a sua falta e buscar a sua conquista completa.

A ideia reaparece em outro dito preservado em Yochanam (João) capítulo 10, versículo 26-29, que diz: – “Vocês não me escutam porque não são das minhas ovelhas. As minhas ovelhas reconhecem a minha voz. Eu as conheço e elas me seguem. Dou-lhes a verdadeira Vida e elas jamais perecerão. Meu Pai que tudo me deu é maior do que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai.”

E por isso há o elogio em Mateus, Capítulo 5, versículo 6: – “Bem-aventurados os que tem fome e sede da Justiça de D’us, pois serão satisfeitos.” E a instrução, no Capítulo 7, versículos 7 e 8:

“Peçam; – e vos será dado.
Busquem; – e encontrarão.
Batam; – e a porta lhes será aberta.
Pois todo aquele que pede, recebe.
O que busca, encontra.
E àquele que bate, a porta lhe será aberta.”

Midrashê Shabat V

No Midrashê Shabat desta semana (já o Midrashê Shabat número V), falarei sobre uma parábola muitas vezes mal compreendida, dita por Jesus. Ela contem em si valores morais contraditórios, só resolvidos diante de uma visão mais profunda do que ele pretendeu ensinar. A parábola está no Livro de Lucas, Capítulo 16, versículos 1 a 8, que diz:

“Um Homem Rico tinha um administrador que foi denunciado por dissipar seus bens. Mandou chamá-lo e disse-lhe: – ‘Que é isso que ouço dizer de ti? Presta contas de sua administração pois já não podes ser administrador.’ O Administrador então refletiu: – ‘Que farei, uma vez que meu senhor me retire a administração? Cavar? Não tenho força. Mendigar? Tenho vergonha. Já sei o que farei para que – uma vez afastado da administração – tenha quem me receba na própria casa…’

Convocou então os devedores do seu senhor, um a um, e disse ao primeiro:

‘Quando deves ao meu senhor?’
‘Cem barris de óleo’, respondeu ele.
Disse então; ‘Toma tua conta, senta e escreve depressa cinquenta.’

Depois disse a outro:

‘E tu, quanto deves?’
‘Cem medidas de trigo’, respondeu.
Ele disse; ‘Toma tua conta e escreve oitenta.’

E o senhor louvou o administrador desonesto por ter agido com prudência.”

Louvou o administrador desonesto por ter agido com prudência? Bom, há aí uma contradição insolúvel, se tivermos à vista apenas valores Morais. Mas como já disse em outras oportunidades, Jesus usa de parábolas para transmitir conceitos espirituais mais profundos, e alcançando a essência de seus ensinamentos, vê-se claramente: – Não há contradição alguma. Explico-me a seguir.

Com a figura do administrador Infiel, Jesus simboliza os filhos do Homem, que receberam para si uma grande riqueza (A consciência e todas as faculdades que o aproximam de D’us, como sua Imagem e semelhança) e não foram dignos dela. Todos, desde Adão, estão em clara e manifesta dívida, todos foram e são infiéis com o que receberam.

“Mas Miceli, perá lá! Você estava na ocasião para saber? Testemunhou as outras gerações?”

Diria eu que testemunho esta geração e isto já me é suficiente. Não há ninguém que não tenha usado mal suas faculdades, que jamais tenha mentido, maldito alguém (maledicência), desejado algo que não é seu, desejado o mal à alguém, etc., etc. Portanto, estamos bem longe da orientação divina que é: – “Sede santos pois Eu sou santo.”

A dívida, convenhamos, é escabrosa. E evidentemente ela será cobrada no tempo oportuno. Diante disto, o que o devedor que é pego, o que o mal administrador pode desejar para si, quando for a julgamento? Argumentos não há, dado que a lista de faltas é imensa. Ademais, há flagrante. Se não for pela Misericórdia, não haverá esperança alguma.

E por isso mesmo Jesus ensina: – “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, para não serdes Julgados; Não condeneis, para não serdes condenados; Perdoai, e vos será perdoado. Dai, e vos será dado. Pois com a medida com que medirdes, sereis medidos também” (Lucas 6.36-38)

Porque, então, a atitude do administrador, perdoando a divida de devedores do seu senhor e encontrando assim graça aos olhos destes, terminou também por encontrar graças aos olhos do seu senhor? Por ser esta a aplicação exata do ensinamento dado por Jesus, citado acima: – “Perdoai, e vos será perdoado. Dai, e vos será dado. Pois com a medida com que medirdes, sereis medidos também”