Antropocêntrico

Dentre as muitas coisas das quais sou acusado – ou até mesmo diretamente condenado – pelos textos que publico, a mais curiosa, sem dúvida nenhuma, é a seguinte: – “Miceli, o senhor tem uma visão antropocêntrica do mundo.” O termo é mesmo este: – Antropocêntrico. Em outras palavras: – “Você vê o mundo só pelo lado dos Humanos.” (vou repetir a frase porque é de uma abstração sensacionalista cativante) – “Você vê o mundo só pelo lados dos Humanos”

Bom, eu adoraria ver o mundo do ponto de vista de uma baleia, de um elefante, de uma girafa ou de um cachorro. Mas pergunto a vocês: – Já viram um cachorro, uma girafa, um elefante ou uma baleia expressarem sua visão de mundo?

“Veja bem; esse Humanos… Caçar Humanos nas aldeias deles não está certo, não está certo!”, diz o Leão ativista, a respeito dos seus que devoram criancinhas Africanas em aldeias. “Alias, não só Humanos, até porque estes são a minoria de nossas vitimas. E o Direito das zebras? E dos antílopes? Está certo mata-los para nos alimentarmos?”, completa o Leão ativista, exaltando-se finalmente. Emocionados, os outros Leões aplaudem. Assinam tratado, comprometendo-se a passarem fome pelo resto de suas vidas. Isto pelo Direito dos antílopes e das zebras (Direitos estes que não existem, mas resolveram respeitar como se existissem)

Minha gente, eu nunca vi uma coisa dessas. E acho mesmo que nunca vou ver, um grupo de animais lamentando pela vida de outros animais ou até mesmo pela vida de Humanos. Assim como nunca verei a “Mãe Natureza” lamentar-se após um terremoto qualquer matar algumas centenas de milhares de pessoas: –  “Assim não, senhor terremoto ! Assim não !” (adianto que os mais geniais atribuirão terremotos ao “Aquecimento Global” provocado pelos Homens)

Relendo este texto, tenho tênue sensação de estar escrevendo para crianças. Majoritariamente escrevo para adultos; os adultos leem e compreendem muito bem. Mas, por vezes, tenho mesmo que escrever para crianças.

Caim e Abel

Todos aqui, religiosos e não religiosos, curiosos ou até mesmo não curiosos, devem conhecer a História de Caim e Abel; A História do primeiro Assassínio da Humanidade, segundo as Escrituras Sagradas.

Quando converso com amigos sobre algo que remeta às Escrituras, encorajo-lhes a aprender o Hebraico – Idioma em que grande parte dos textos foram escritos – pois há todo um arcabouço de nuances que se perde com a tradução. Agora, aqui mesmo, darei um exemplo curioso, que aparece nesta História do Assassinato;

Após Caim ter assassinado o irmão, foi-lhe dito por D’us;

“Ouço o sangue do teu irmão clamar por mim desde a superfície da Terra”

Bom, esta é a tradução.

Mas na verdade, não há “Sangue”, no singular, em Hebraico. E sim “Sangues”, no plural (Demê).

“Ouço os sangues do teu irmão clamarem por mim desde a superfície da Terra”

Os Rabinos dão uma interpretação interessante;

Dizem que Caim foi condenado não só pela morte de Abel, mas também pelas incalculáveis gerações que nunca vieram a existir, devido sua morte.

Ou seja, é ensinado aí um principio importante;

Muitas vezes não compreendemos como um pequeno ato poderia ter uma implicação grandiosa para nós. Uma pequena mentira, uma pequena displicência, uma ação mal colocada ou inação.

Quantas vezes uma pequena mentira vira um grande imbróglio ? Uma pequena displicência, um grande acidente ? Um ação mal colocada, um ato falho. A inação, a perda de uma oportunidade que renderia inimaginaveis frutos ?

Nosso horizonte de consciência é por demais limitado e raciocinamos apenas com os dados que já temos. E os dados vindouros, o que estão por vir e não conhecemos ? Fogem ao nosso escopo, totalmente. Não temos como mesurar todas as implicações diretas e indiretas dos nossos atos.

No assassinato de Abel por seu irmão Caim, tal como exposto na Biblia Hebraica, está claro;

Quem mata uma vida, mata centenas de milhares de vidas.

Quem comete um ato, ainda que dos menores, interfere no Todo, de modo incompreensível e imensurável.

Cultura da Neutralidade

A Cultura atual da neutralidade, do não tomar posição, do não tomar partido, de assistir todo o desenrolar da História do alto d’um palco de indiferença ilusória lustrado de afetação, me parece – além de covarde – uma atitude completamente obtusa e irracional.

Falo do famoso “ficar em cima do muro”; do agradar “Gregos e Troianos”.

Pois eu lhes digo;

Em uma Guerra, quem fica no meio do caminho, é alvejado pelos dois lados.

Diálogo Gratuito

– Miceli, não vale a pena ensinar para aquele que não quer aprender.
– Concordo. O segredo é faze-lo querer.
– … No mais, não ganha-se nenhum dinheiro…
– O sujeito do qual aprendi todas as coisas ensinou: – Vocês receberam de graça, deem também de graça.
– Mas nada é de graça neste mundo!
– Então diga-me: – Quanto você pagou para vir à Vida?
– … Não dá para conversar com você, Miceli. Definitivamente.

Sucot

Chag Sameach Sucot!

Hoje – 27 do mês de Setembro para nós, 14 do mês Tishrei para os Judeus – estamos às vésperas de Sucot, a Festa dos Tabernáculos, comemorada anualmente pelos Israelitas. Felicito aqui, então, meus amigos judeus!

Curisidade I

A cada dia de Sucot, é recitada uma Brachá (Benção) chamada “Brachá das Quatro Espécies (Ou Arba Minim, em Hebraico). Do que se trata? Usa-se quatro espécies de plantas distintas, para simbolizar as características de cada pessoa da comunidade.

Temos:

Etrog – Parecida com um grande limão; Esta fruta cítrica tem cheiro e sabor. Representa as pessoas que têm Cultura, grande Virtudes, e procuram ajudar o seu irmão.

Lulav – É um ramo de tamareira, espécie de Palmeira. Tem sabor, mas não tem cheiro. Representa pessoas que tem sim, Cultura (sabor), mas não ajudam ninguém, fechadas em seu egoísmo.

Hadáss – Murta. Possui cheiro, mas não sabor. Representa pessoas que, malgrado sua deficiência Cultural e limitações (falta-lhe “sabor”), procuram, ainda assim, ajudar o próximo (exalam bom aroma).

Aravá – Folha do Salgueiro. Não tem cheiro nem sabor. Representa pessoas sem Cultura, as quais – como se não bastasse a própria miséria Cultural – não buscam melhora para si nem para o seu irmão. O egoísmo que limita a si mesmo e não acrescenta à comunidade.

E então, qual é a sua classificação atual? Qual destas espécies corresponde à sua Realidade?

Curiosidade II

Sabiam vocês que Jesus, como bom Judeu, participou da Festa dos Tabernáculos? Este Registro está no Livro de Yochanan (Evangelho de João), Capítulo 7:

“Aproximava-se a Festa dos Tabernáculos; então, seus irmãos disseram: – ‘Parte daqui (Galiléia) e vai para Judeia, para que teus discípulos também vejam as obras que fazes, já que ninguém age às ocultas, quando quer ser publicamente conhecido. Já que fazes tais coisas, manifesta-se ao mundo!’. Diziam isto pois nem mesmos os seus irmãos criam nele.

Disse-lhes Jesus: – ‘Para mim ainda não chegou o tempo certo; para vocês qualquer tempo é certo. O mundo não odeia vocês, mas odeia a mim, pois dou testemunho de que suas obras são más. Subam vocês à festa. Não subo à esta Festa pois ainda não chegou-me o tempo apropriado.’

Tendo dito isto, permaneceu na Galileia. Mas quando seus irmãos subiram, também ele subiu, não publicamente, mas às ocultas. Faziam-se muitos comentários a respeito dele na multidão. Uns diziam ‘Ele é bom!’, outros diziam ‘Não! Ele engana o povo!’. Entretanto, ninguém falava dele abertamente.” 

Mendacidade dos Homens

Só se é único sendo Pai. E só se é única sendo Mãe. Nem mesmo a condição de Filho outorga tal unicidade última.Um casal pode ter vários filhos. Mas um filho só pode ter um Pai. E um filho só pode ter uma Mãe. Por isso mesmo digo; A Paternidade e a Maternidade elevam o ser humano à condição do ser único.

“Há padrastos e há madrastas!”, avisam-me. Digo-lhes: – Não conceberam. Vejam bem; não conceberam. E por que dei a refletir sobre isso? Por todo lado, vejo o Anti-Pai e a Anti-Mãe. Pululam; saem de sob carros, da profundeza de boeiros urbanos, caem de sobre a copa de árvores, rolam por telhados elevados (quando não adentrando chaminés)

“Não nasci para ser Pai !”, diz o Anti-Pai. “Não nasci para ser Mãe!”, diz a Anti-Mãe. “Quero ter a minha própria vida, ouviu bem? Minha própria vida!”, dizem ambos. Ouço e fico a imaginar o que seria esta tão ufanamente anunciada “própria vida”. Será que o Anti-Concepção (adoto aqui modelo andrógino, que aliás, está também bem na moda) tem como “própria vida” o cursar meia década de faculdade, qualificando-se para ser um bom empregado de alguém?

“Não nasci para ser empregada de marido! Não nasci para ser empregada de filho!” Diz a Anti-Mãe, no momento mesmo em que tem a carteira de trabalho assinada por seu novo amo; o Patrão. “No meu emprego, sou única! No meu emprego, me dão valor! No meu emprego, sou insubstituível!” Diz, orgulhosa e realizada, na exata semana anterior à sua demissão. (Tendo na semana seguinte alguma outra, tão “qualificada” quanto, em seu lugar.)

Esta elevação do trabalho à finalidade última da vida sempre me pareceu uma loucura hedionda. Um erro monumental. Uma aberração. Tem-se como “trabalho” um meio de se produzir, onde também – e, para alguns, principalmente – adquire-se o sustento para a própria vida. Ora, se o sujeito não tem uma vida, vai sustentar o que?

Jesus, atordoado com a mendacidade dos homens, já indagava sobre montes:

“Porque vocês se preocupam exacerbadamente com comida? Por que se preocupam tanto com roupas? Não é a vida mais importante que a comida ? E o corpo mais importante que a roupa?”

Shakespeare, ao lidar com sujeitos fúteis e rasos, dizia:

“As almas desses homens estão nas roupas que vestem”

O Anti-concepção é isto: – Em sua futilidade existencial, o máximo que concebe é a aquisição de um novo modelo de celular, ou de um novo modelo de automóvel. A concepção da vida, o ser único, de fato, ficou em segundo plano. Minto: –  Já não está nem mesmo nos planos do Homem atual.

“Serei o que Serei”

Só o que não se realiza é Eterno. Pensei nisso. O que quer dizer, não sei. Ou melhor, sei. Melhor ainda: – Imagino. O Fato é: – Todos os meus “sonhos” realizados morreram. Tive de substitui-los por outros que, quando alcançados, encontravam igual sorte: – Mortos, de necessária substituição. Só meus sonhos inalcançados permanecem vivos. E por isso mesmo pensei: – Só o que não se realiza é Eterno.

E desta pequena reflexão pessoal, circunscrita à minha pequenez individual – tanto no tempo, quanto no espaço – vim a entender o conceito último de D’us. Sim, isto mesmo; compreendi completamente o conceito último de D’us.

“Miceli, o senhor é um petulante! Não seja prepotente! Está mesmo é como seu amigo Otávio: – O fracasso subiu-lhe a cabeça!”. Acalmem-se e explico-me. Como todos (ou alguns) sabem, dei a estudar Hebraico há pouco tempo. E surpreendeu-me saber que a famosa resposta de D’us à Moisés, quanto ao seu Nome, quanto a sua Natureza, não é bem a que eu pensava que fosse. Ou melhor, não é bem a que conhecem, majoritariamente.

Refiro-me ao famoso trecho do Livro de Êxodo, Capitulo 3, versículos 13 – 15, que nos conta: – “Moisés disse a D’us: – Quando eu for aos israelitas e disser: – ‘O Deus de vossos pais enviou-me até vós’; e perguntarem-me: – ‘Qual é o seu nome?’, que direi?”. Disse então D’us a Moisés: – ‘Eu sou Aquele que é'”

Essa é a tradução comum, a tradicional, para o português, conhecida por todos. Mas a resposta obtida foi de fato esta: – “Serei o que serei” Repito: – “Disse D’us a Moisés: ‘Serei o que serei'”

Dei a fascinar-me. Digo isto porque, juntando esta resposta com minha pequena reflexão individual “Só o que não se Realiza é Eterno”, há aí um bom encaixe. Finalmente vim a entender porque o D’us único e transcendente não pode assumir um nome, não pode assumir uma existência, seja ela de que natureza for, neste mundo. E o motivo é simples: – Nomear é limitar, e assumir existência em um mundo de existências efêmeras como o nosso, é assumir a Morte, é assumir um Fim.

O que é Eterno, por definição, não tem Fim. E o que compreende e transcende todas as coisas não pode ter um único nome. É todos os nomes e não é nenhum, por mais paradoxal que isso possa parecer. E a compreensão deste paradoxo explica também um outro paradoxo: – A importância das “trevas” na Criação. Como é dito em Gênesis Capítulo 1, versículo 2: – “Ora a Terra estava vazia e vaga, e as trevas cobriam o abismo” e no versículo 3 temos: – “E D’us disse: ‘Haja Luz’, e houve Luz”

Notem a exposição de um princípio: – Sem o vazio, não há possibilidade de preenchimento. E o “movimento” do preenchimento, o movimento do preencher o vazio, é a Vida. Digo isso porque aquilo que é pleno, está acabado.”O que não acrescenta termina”, já diria um sábio judeu (Hillel, se não me engano)

Ou seja, o ser Eterno implica num acrescentar constante; “Serei o que Serei”. E esta visão de “Movimento” como “Vida” vem concordar com um dito de Jesus preservado no Evangelho de Tomé, que nos diz: – “Se vos perguntarem: – ‘Qual é o sinal do vosso Pai em vós?’ Digam-lhes; ‘É movimento e repouso.'” Neste manuscrito Jesus alude à morte por este nome; “Repouso”, o que colabora para esta percepção de Vida como “Movimento”.

Enfim, fiz uma pequena viagem teológica (Não. Não há um narguilé no meu quarto) Mas transcrevo aqui para que vejam a riqueza de significados compactados em afirmações aparentemente simples, e que desconhecer o idioma original bem como todo a arcabouço da tradição oral e outros documentos, não raro, implica em perda de significado dos termos.

No mais, ouço muitos ateus dando a falar asneiras do tipo: – “Imagine só, se eu acreditaria nesta piega de Deus! Um homem barbado no céu!” Filho, se o conceito de Deus conhecido pelo senhor é “Um homem barbado no céu”, por favor, vá para o seu quarto, feche a porta, e… Fique por lá mesmo. Ao menos até criar alguma cultura, ainda que mínima, no assunto.