Nasce Otavinho

Venho precaver meus caros amigos: -Citar conhecidos em sua timeline do Facebook é atividade perigosa. Ainda ontem, citei meu glorioso amigo Otávio (não é Otávio, mas escrevo Otávio) e já hoje meu telefone toca, insistentemente. É noite. Atendo, contrariado. É Otávio.

– Miceli?
– Sim.
– O que andou escrevendo em sua timeline do Facebook?
– Escrevo muitas coisas em minha timeline do Facebook.
– Quem é Otavinho? (percebe o meu silêncio e continua, como que numa especificação) – O que pulou como uma lebre para o ônibus…
– Pulou como uma lebre…
– Pulei rápido.
– Foi o que eu quis dizer…
– Se eu soubesse que transcreveria o que digo, sem autorização, não diria-lhe mais nada, nunca mais.
– Fala do “Homem-semeador”, da “Mulher que cultiva”?
– Sim. Falo de minha filosofia.
– Sua filosofia?
– Sim.
(Fez-se silêncio) – Está certo. Vou apagar.
– Não apague.
– Não?
– Não. (pausou e continuou) – Deixarei você atuar na clandestinidade.
– Clandestinidade?
– Sim. Sempre que houver um rompante filosófico de minha parte, mesmo não tendo permissão para transcrever, transcreverá mesmo assim.
– …
– A partir de hoje, serei Otavinho.

Fez-se um silêncio. Havia desligado. Devolvi o telefone ao gancho, atônito. Levantei-me da poltrona lentamente e tomei o caminho do corredor. Logo veio-me uma célebre frase do glorioso Nelson Rodrigues.  Pensei: – Coitado de meu prezado amigo Otávio… O fracasso subiu-lhe a cabeça.

Otávio Semeador

Estava eu conversando com meu glorioso amigo Otávio (não é Otávio, mas escrevo Otávio) Conversávamos tranquilamente sobre uma miríade de assuntos, até que surge um dos mais espinhosos: – Monogamia/Poligamia.

– Miceli, veja bem, eu defendo as duas coisas…
– As duas coisas?
– Sim, as duas coisas (pausa e prossegue) Defendo a poligamia para o homem e a monogamia para mulher.

Havia uma moça ao nosso lado – saliento que estávamos os dois em um ponto de ônibus -, ela revira os olhos mortalmente e se afasta de Otávio, como quem se afasta de um tuberculoso ou algo parecido. Por minha vez, permaneci bem onde estava; Notava uma inspiração difusa no rapaz. Um brilho nos olhos, como se estivesse tendo acesso a algum conteúdo de cunho transcendental. Deixei-o continuar, e ele continuou:

– Imagine uma ilha.
– …
– Vamos, imagine uma ilha!
– Estou imaginando (contrariado)
– Não precisa ser com detalhes, apenas imagine uma ilha…
– …
– Agora ponha lá 99 mulheres e 1 homem, nesta ilha.
– …
– Ponha!
– Estão todos na ilha. (constrangido por não conseguir – ou não querer – acompanhar devidamente o voo astral de Otávio)
– Veja bem: –  Este homem tem a capacidade de relacionar-se com todas as mulheres da ilha, simultaneamente. Ou seja: – Com 1 homem e 99 mulheres na ilha, haverá 99 bebês em 9 meses.
– Seria trabalhoso (ponderei, inocente) Não um trabalho ruim, mas seria trabalhoso…
– Mas é possível!
– Sim, é possível. (lamentando concordar)
– Agora retire todos eles…
– …
– Retire!
– Estão todos foras da ilha… (o voo astral de Otávio estava começando a me cansar)
– Ponha agora 99 homens e 1 mulher. (Obedeci imaginativamente. Ele prosseguiu) Veja bem: – A mulher, por mais que se relacione com algum dos homens, só poderá ficar gravida de 1 por vez, e a cada 9 meses. Ou seja, 99 homens e uma mulher na ilha, equivale a tão somente 1 bebê a cada 9 meses! (Em júbilo metastático, concluiu)  O homem é semeador por natureza; ele tem a capacidade de semear em diversos terrenos ao mesmo tempo. Já a mulher é aquela que cultiva, e ela só pode cultivar uma semente por vez.

Antes que eu pudesse tecer algum comentário, o ônibus de Otávio chega. Ele salta para dentro do ônibus como uma lebre, como que energizado pela iluminação que acabara de ter. Já dentro da condução, apinhado na fila do cobrador, ele aponta para mim como quem diz: – “Pense nisso”. O ônibus partiu, levando um dos maiores gênios do nosso tempo: – Otavinho.

Traços finos, trejeitos femininos

Hábitos, quem não os tem? Virtuosos ou viciosos, todos tem seus hábitos. Ao longo dos tempos, desenvolvi um hábito quase mórbido. Todos os dias, enfio-me em uma livraria. Digo uma, mas na verdade enfio-me em três livrarias. (uma por vez, evidentemente)

Diariamente, percorro três das livrarias Tijucanas, próximas a praça Saens Peña. Todos os dias, os livros são sempre iguais. Não, não há nenhum título novo. Não, nem um sequer. Quando ocorre ter título um novo, não me ocorre ter o dinheiro para compra-lo, de modo que fico indiferente aos títulos novos. Sou um leitor de contra-capas. Quando muito, prefácios. Fico pelos cantos, procurando pontos cegos à sombra de pilastras, onde possa ler prefácios e contra-capas.

Num dia desses, eis que encontro um grande amigo meu, numa destas livrarias: – Augusto. Augusto é músico. Augusto é violonista; violonista Erudito. Um belo instrumentista, devo dizer. Alias, houve tempo em que sonhei ser músico. Sim, músico. Ao passar por um piano, doía-me a alma.Vinha-me a mente vertiginosas melodias cantáveis de Chopin, e pensava: – “Se toco num piano, torno-me o melhor interprete de Chopin de nosso tempo” e delirava: – “Não apenas de nosso tempo, de todos os tempos”. Em meu devaneio, nem o próprio polonês tocaria suas obras tão fidedignamente quanto eu.

Mas o fato é que nunca toquei num piano. Manuseei baterias, baixos, violões acústicos, guitarras elétricas, o diabo. Mas nunca um piano. Minto: – Por três meses tive um piano digital em meu quarto. E o vendi, a preço de batatas.

Mas não é sobre isso que eu iria falar, estou divagando. Encontrei-me com Augusto, o músico erudito, e logo nos sentamos a tomar café. Estávamos na “Saraiva Mega Store”, no interior do Tijuca Shopping, que, como livraria, é uma excelente mega store. Papeávamos.

Logo, o café chega. Com ele, chega também uma menina. Chega uma menina que se acomoda a algumas mesas de distância da nossa. Ocupo-me do meu café, mas há um sobressalto notável em Augusto:

– Miceli
– Diga.
– Viste aquela menina?
(Olho brevemente, de relance, ainda provando do primeiro gole de café) – Sou um rapaz comprometido, não observo meninas (esquivando-me)

A menina indiferente estava lá, impassível, ornamentada como um pavão. (Digo menina, mas tratava-se de uma donzela de seus 20 e poucos anos) Augusto investe em seu primeiro gole de café, ainda entretido pelo pavão, digo, pela menina, de modo a quase banhar-se grotescamente com o liquido cafeinado.

– Vou até lá  (decidiu-se, após o primeiro gole perigoso)
– Vá
– Alias, não vou.
– Por que não?
– Serei esnobado.
– Por que diz isso?
– Sei de minhas limitações. Esta não é para o meu bico. Serei esnobado.
– Tem razão. Provavelmente será esnobado…
– Belo amigo é você!
– Você quem disse!
– Não era para concordar!
– …
– Vou até lá (resoluto)

Desta vez, foi mesmo. Chegou à mesa da menina, disse algo (para mim, inaudível.) Ela franziu o cenho, como se estranhasse. Enfim, talvez por educação, recebeu-o em sua mesa. Deram a conversar. Observo tudo a distância, apreensivo. Temia ter de pagar minha conta e a de Augusto, sozinho (vejam bem: – Não sou avarento) A conversa se estende; 10, 15 minutos. Finalmente, ergue-se a menina, toma seus pertences, e parte. Augusto volta com ar algo triunfante: – “Tenho meu charme”, refletiu em voz alta. – “Sim, consegui o telefone”, informou-me, derradeiramente.

Passaram-se dias. Talvez até algumas semanas. Não mais tive contato com Augusto. Na verdade, não somos amigos de contato frequente. É uma daquelas amizades que se conserva à distância. Você sabe que pode aciona-la a qualquer momento, mas não aciona (por preguiça ou algo do tipo) No entanto, ele me liga, passados estes dias (ou semanas)

– Miceli?
– Sim.
– Estou deprimido.
– Na última vez que o vi, parecia entusiasmado…
– Sim. Mas agora me deprimo…
– Motivo?
– O mesmo do entusiasmo.
– O pavão?
– A menina.
– A menina… (pausa para ajeitar-me ao telefone) O que houve?
– Você não vai acreditar, Miceli, não vai acreditar…
– Conte-me.
– A menina, Miceli… – é lésbica.
– Lésbica?
– Sim.
– Muitas meninas são lésbicas, hoje em dia…
– Sim, Miceli. Mas esta não podia ser, esta não podia ser…
– Por que não?
– Porque a amo. (sim, músicos são passionais)

Fez-se um silêncio ensurdecedor, só rompido por minha infame curiosidade:

– Por que raios, então, deu-te o telefone?
– Vá saber, Miceli! Vá saber!

Fez-se novo silêncio. No entanto, agora quem o rompe é o próprio Augusto, com a resignação digna daquele que confessa:

– Na verdade, sei.
– Sabe?
– Sim…

Temi perguntar. A confissão então continuou, sozinha, com o fluir natural das confissões:

– Disse-me que empatizou com meus traços finos…
– …
– … E meus trejeitos femininos…

Segunda via; documentos.

O Rio de Janeiro é uma cidade de extremos. Há bairros pomposos, de primeiro mundo. Lamborghinis, Porsches, Ferraris… Uma orla suntuosa e picolés e garrafas d’água a 10 reais. Sim, 10 reais. Mesmo turistas abastados teriam dificuldade em sobreviver 1 mês sequer nestes bairros (ainda que vivendo d’água e picolé)

Há também os bairros devastados. Valões, ratos, lixões, ratos… Miséria total, sem economia. Outro dia estava eu a caminhar pela rua Maxwell, à beira do rio Joana (os índios tamoios costumavam chama-lo “Andirá-y”; significa “Rio dos Morcegos”) Quem mora por estas bandas ou passa por aqui não vê um rio, vê um valão. Mas os índios viam um rio, na época deles. Viam o rio e viam também os morcegos. Hoje restaram apenas os morcegos.

Mas não era sobre isso que eu ia falar, estou divagando. Estava eu a caminhar à beira do Rio dos Morcegos. Repentinamente sou abordado:

– Passe-me tudo!
– Como?
– Passe-me tudo! Um assalto! (esclarece)
– Tenho apenas a carteira. (tensão)
– Pois passe-me a carteira.!
– Passo… Mas retiro os documentos, primeiro.
– Não! Passe-me toda a carteira, rápido! Toda a carteira ou dou-lhe um tiro na cara!

O Rio de Janeiro é a cidade dos extremos, como eu ia dizendo. Não há meio termo. Passei toda a carteira, até o ultimo folheto de extrato bancário e comprovante fiscal retorcidos. O sujeito se foi.

Antes mesmo que este sumisse de vista, me dei conta: – “Sou um indigente; um indigente à beira do Rio dos Morcegos.” Caminhei para casa, consternado. Entrei. Abri a geladeira e tomei meu primeiro copo d’água como indigente (tinha o mesmo gosto d’água de outros tempos, no fim das contas)

No dia seguinte, fui retirar a segunda via dos documentos. Ouço todos falarem: – “Tirar segunda via de documentos é um inferno ! Um inferno!” Com efeito, nascer é mais fácil do que provar que está vivo. Já no primeiro dia de inúmeras tentativas, descobri isso.

Cheguei no local, fui atendido por uma moça:

– Bom dia.
– Bom dia.
– Posso ajuda-lo?
– Sim.
– Em que posso ajuda-lo?
– Segunda via, documentos.

Ela manifestou um gentil sorriso. Pensando bem, não sei se foi um gentil sorriso de compaixão, por saber o que eu haveria de passar, ou um gentil sorriso de deboche, por saber o que eu haveria de passar. Enfim, a moça afundou os olhos no monitor do computador, e deu a digitar. Do balcão, olhei ao redor: – Uma porção de indigentes; todos sentados. Minto, na verdade havia alguns de pé, também; eram muitos indigentes e não havia lugar para todos.

Finalmente ela termina algum procedimento, vira-se, pergunta:

– O Senhor trouxe os documentos?
– Documentos?
– Sim. Os documentos para tirar a segunda via dos documentos.