“Serei o que Serei”

Só o que não se realiza é Eterno. Pensei nisso. O que quer dizer, não sei. Ou melhor, sei. Melhor ainda: – Imagino. O Fato é: – Todos os meus “sonhos” realizados morreram. Tive de substitui-los por outros que, quando alcançados, encontravam igual sorte: – Mortos, de necessária substituição. Só meus sonhos inalcançados permanecem vivos. E por isso mesmo pensei: – Só o que não se realiza é Eterno.

E desta pequena reflexão pessoal, circunscrita à minha pequenez individual – tanto no tempo, quanto no espaço – vim a entender o conceito último de D’us. Sim, isto mesmo; compreendi completamente o conceito último de D’us.

“Miceli, o senhor é um petulante! Não seja prepotente! Está mesmo é como seu amigo Otávio: – O fracasso subiu-lhe a cabeça!”. Acalmem-se e explico-me. Como todos (ou alguns) sabem, dei a estudar Hebraico há pouco tempo. E surpreendeu-me saber que a famosa resposta de D’us à Moisés, quanto ao seu Nome, quanto a sua Natureza, não é bem a que eu pensava que fosse. Ou melhor, não é bem a que conhecem, majoritariamente.

Refiro-me ao famoso trecho do Livro de Êxodo, Capitulo 3, versículos 13 – 15, que nos conta: – “Moisés disse a D’us: – Quando eu for aos israelitas e disser: – ‘O Deus de vossos pais enviou-me até vós’; e perguntarem-me: – ‘Qual é o seu nome?’, que direi?”. Disse então D’us a Moisés: – ‘Eu sou Aquele que é'”

Essa é a tradução comum, a tradicional, para o português, conhecida por todos. Mas a resposta obtida foi de fato esta: – “Serei o que serei” Repito: – “Disse D’us a Moisés: ‘Serei o que serei'”

Dei a fascinar-me. Digo isto porque, juntando esta resposta com minha pequena reflexão individual “Só o que não se Realiza é Eterno”, há aí um bom encaixe. Finalmente vim a entender porque o D’us único e transcendente não pode assumir um nome, não pode assumir uma existência, seja ela de que natureza for, neste mundo. E o motivo é simples: – Nomear é limitar, e assumir existência em um mundo de existências efêmeras como o nosso, é assumir a Morte, é assumir um Fim.

O que é Eterno, por definição, não tem Fim. E o que compreende e transcende todas as coisas não pode ter um único nome. É todos os nomes e não é nenhum, por mais paradoxal que isso possa parecer. E a compreensão deste paradoxo explica também um outro paradoxo: – A importância das “trevas” na Criação. Como é dito em Gênesis Capítulo 1, versículo 2: – “Ora a Terra estava vazia e vaga, e as trevas cobriam o abismo” e no versículo 3 temos: – “E D’us disse: ‘Haja Luz’, e houve Luz”

Notem a exposição de um princípio: – Sem o vazio, não há possibilidade de preenchimento. E o “movimento” do preenchimento, o movimento do preencher o vazio, é a Vida. Digo isso porque aquilo que é pleno, está acabado.”O que não acrescenta termina”, já diria um sábio judeu (Hillel, se não me engano)

Ou seja, o ser Eterno implica num acrescentar constante; “Serei o que Serei”. E esta visão de “Movimento” como “Vida” vem concordar com um dito de Jesus preservado no Evangelho de Tomé, que nos diz: – “Se vos perguntarem: – ‘Qual é o sinal do vosso Pai em vós?’ Digam-lhes; ‘É movimento e repouso.'” Neste manuscrito Jesus alude à morte por este nome; “Repouso”, o que colabora para esta percepção de Vida como “Movimento”.

Enfim, fiz uma pequena viagem teológica (Não. Não há um narguilé no meu quarto) Mas transcrevo aqui para que vejam a riqueza de significados compactados em afirmações aparentemente simples, e que desconhecer o idioma original bem como todo a arcabouço da tradição oral e outros documentos, não raro, implica em perda de significado dos termos.

No mais, ouço muitos ateus dando a falar asneiras do tipo: – “Imagine só, se eu acreditaria nesta piega de Deus! Um homem barbado no céu!” Filho, se o conceito de Deus conhecido pelo senhor é “Um homem barbado no céu”, por favor, vá para o seu quarto, feche a porta, e… Fique por lá mesmo. Ao menos até criar alguma cultura, ainda que mínima, no assunto.

Trezentos reais

Trasanteontem fiz uma visita indesejada à emergência de um Hospital. Motivo: – Tosse. Intensidade: – Total. Havia febre e havia outros sintomas, menores. O Hospital: – Não cito nome. Limito-me a dizer que se instala na Tijuca, cidade do Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro.

Alegrou-me saber que o hospital havia sido fundado por freiras e, de fato, vi algumas passando aqui e acolá, sempre em duplas, e sempre sorrindo. “Estou bem assistido”, pensei. Caminhei toda a subida (entrada íngreme) em meio a arbustos verdejantes, que só pelo ar que proporcionavam já sanavam-me meia doença. Havia aves cruzando os céus, cantarolando, e apesar de todo este cenário natural, as instalações eram um tanto quanto modernas e vistosas.

“Sem duvidas, estou salvo”, concluí, já praticamente curado. Mas a cura de antemão era ilusória. Não durou. Acabou na recepção. Acabou com a atendente. Acabou com o boleto de cobrança, referente a visita aprazente: – Trezentos reais. Observei o valor e comecei a imaginar que cobravam pelos arbustos, pelas árvores e pelas freiras que sorriam. Sim, porque, em meu singelo atendimento (feito, se não me engano, por uma estagiaria, estudante de medicina – tão prática quanto antipática), não consumi um esparadrapo, uma gaze, um algodão. Também não fiz nenhum exame. E estava lá, a cobrança inexorável, estampada no boleto branco, quase que transcendental: – Trezentos reais.

– Minha filha, veja bem (dei a argumentar, pateticamente, sondando algum engano) Não extirparam-me o apêndice, nem enfiaram-me naqueles tubos modernos. Tudo o que a senhorita que atendeu-me fez foi mandar-me abrir a boca e por a língua para fora. Isto me custou trezentos reais?
– É o que está escrito?
– Sim.
– Então é isto mesmo.
– …

Sendo devidamente atendido e tendo tudo esclarecido, saí dali. Havia outras freiras passando e tratei de não reparar-lhes o sorriso. Os arbustos farfalhavam, oferecendo-me ar fresco, mas não quis consumi-los (Prendi a respiração) – Estava com o boleto e mãos e o olhava. E os pássaros? Passaram, também, novamente, e tapei os ouvidos, não pagando-lhes a canção.

Ao passar pelo portão, em derradeira saída, notei que já não tossia havia algum tempo. Quanto tempo? Fiz uma retrospectiva mental e conclui: – O boleto. Não foram as freiras, os arbustos, os pássaros, a atendente ou a estagiaria, que haviam-me curado.Tão pouco seriam os remédios (até porque, tendo pago o boleto, pouco ou nenhum dinheiro sobraria-me para compra-los)

A cura fora o escândalo.Sim, o escândalo. Escândalo em três dígitos: – Trezentos reais.

Os circundantes

Trabalhar no comércio, no comércio de rua, tem suas peculiaridades, tem suas vantagens.

Há contato com transeuntes, e há contato com circundates.

Sim, circundantes.

Circundantes são aqueles que, dado algum acontecimento pitoresco em vias públicas, param, amontoam-se, e dão a redigir noticiarios, matérias, em tempo real (não raro acrescentando seus proprios pormenores – ou pormaiores)

Certa feita um sujeito atravessou a esquina. Como estivesse desatento, foi arremessado. Vôou e estatelou-se. Não houve morte. Falava. Melhor; agonizava.

Atropelado.

O veículo; Onibus.

Haviam passageiros. Com eles, o alarido. O alarido monumental da pressa;

“Motorista ! Como foi atropelar este homem ? Temos horário para trabalhar !”

Surge o guarda municipal.

Guardas municipais são figuras espectrais. Ninguém os vê, quando precisa deles. Mas certamente aparecem para multa-lo. Surgem de boeiros, da copa das arvores, detrás de postes (mesmo finos), descem montando as aves do céu.

Enfim, não havia multa, havia um atropelado, e mesmo assim o guarda municipal incrivelmente se fez presente (talvez tivesse sido pego de supetão)

Lograva o controle impossível do transito caótico (tratava-se de cruzamento) e o controle igualmente impossível dos circundantes. Estes , por sua vez, precipitavam-se para ver o morto. (Não havia morto e retornavam, frustrados)

Mas muitos ficavam. Ficavam e começavam a redação.

Aqui;

“Fulana, como se deu o atropelo ? O que aconteceu ?”

“Assalto ! Assalto no onibus ! O motorista perdeu o controle e atropelou o pobre coitado!”

Acolá;

“Sicrano, como se deu o atropelo? O que aconteceu?”

“Briga de marido e mulher ! O Sujeito descobriu seus chifres e atacou a todos ! Sobrou até para o motorista, e por conseguinte, para o pobre atropelado !”

Não havia reporter, mas já havia a noticia; Escrita, editada, publicada pelas bocas.

Ou melhor, noticias – plural. Noticias para todos os gostos.

O atropelo, o agonizante, o trânsito engarrafado, tudo tornara-se secundário.

Discutia-se o suposto assaltante, o suposto traído.

Como não havia assaltante e como não havia traído, houve adaptação.

E a versão final, que ouvi da boca de circundante proeminente (uma senhora esférica e agitada), foi esta;

“O Sujeito é bandido. E descobriu ter chifres. Sim, chifres. Veio atrás da mulher no trabalho dela. Bandido violento, agrediu a moça. Na hora de fugir, foi atropelado.”

A resposta veio em coro jubilar, louvando a justiça recém realizada;

“Bem feito !”

A lebre

Linha 422: Grajaú – Cosme Velho.

Faço o sinal. Para o motorista.

Entro.

Está cheio, não tanto.

Encontro lugar.

Sento-me ao lado de um jovem com fones. Este inofensivo, de fones também inofensivos (não reverberavam nenhum Funk Carioca)

À frente, duas meninas. Meninas-Moças. (Arrisco 16 para uma e 17 para outra)

Como desconheço nomes, irei chama-las assim mesmo; “Uma” e “Outra”.

Uma soluçava. Uma gemia. E eu, estando ao banco de trás, não via lágrimas, mas ouvia.

Ouvia e pensava; “Chora de amor. Menina-moça já chorando de amor”

Outra cuidava de Uma com esmero. Consolava, iludia para consolar.

“Também não é assim! Também não é assim! Não é o fim do mundo!” (Nesta idade desilusão é fim de mundo)

“E agora, o que vai ser de mim ? Me diz ! Ele era o homem da minha vida ! Entende isso? O homem da minha vida!” (Ocorreu-me dizer que ela teria ainda outros 3 ou 4 “homens de sua vida”, mas não quis ser rude. No mais, o imbróglio não me dizia respeito)

Estava apenas como espectador; Eu e os demais passageiros, condoídos com o choro da menina, ouvindo a sinfonia de gemidos e o estalado dos soluços. De fato, havia algum desespero. A não ser para o jovem; Para o jovem dos fones. Este fazia sua propria viagem.

Então, Uma disse;

“Atiro-me pela janela! Em movimento!”

A Plateia segurou nos bancos. (O jovem, impávido)

Outra interpelou;

“Não vai se jogar de lugar nenhum ! Você nem passa por essa janela, ouviu bem? Não passa nem se quiser ! Fique aí quieta !”

E senhoras, e senhores, apartavam;

“Fique aí sentada menina! Se acalme! Pelo amor de Deus! Não vá se matar com a gente aqui dentro!” (Notem a preocupação: “Não vá se matar com a gente aqui dentro”)

Uma se debatia, Outra acudia, como podia, e podia pouco.

Eis então que o inusitado acontece;

O jovem dos fones retira os fones.

Não de forma brusca, não de forma comum. Retira-os solenemente, um de cada vez, e ergue-se como um totem , ereto, erigido.

Aborda a menina.

Era ele, o tal homem de sua vida.

Haviam terminado. Poucos dias. O acaso os colocara no mesmo ônibus.

A principio irredutível ao histrionismo jovial da amada, ele agora manobrava-a, acalmava os ânimos, e não somente isso; Para surpresa (e revolta) geral, após todo o alarido desconcertante, os dois terminaram por sair aos beijos, na estação seguinte.

A Outra, coitada, que sofreu todo o disparate da amiga, bravamente, permaceu no onibus por mais algumas estações. Notei que havia com ela uma edição de bolso de “Bom é o que acaba bem”, de William Shakespeare.

Se não me engano, há uma frase nesta peça que nos diz;

“A lebre que vê esposo no Leão
Morre de amor”

A Ilusão da escassez

“Estou farta desta vida! Só trabalho e estudo! Não tenho nada! Nada!” Estas são as lamúrias Eternas da donzela Beatriz; uma menina muito doce, de traços finos e trejeitos femininos (não como os de Augusto – mas genuínos), singela e bela como uma boneca de porcelana. Antes fosse mesmo uma boneca, graciosamente emudecida, pois quando dá a falar, dá a reclamar.

– Você não acha, Miceli ? Não acha que temos uma vida miserável? Vale a pena viver nesse aperto? Diga-me se vale!

Não ouvi a pergunta. Devo admitir: – Quando estou a caminhar com Beatriz, desligo os ouvidos.

– Miceli? (cutucou-me)
– Hum …
– Responda a pergunta, diabo!
– Que pergunta?
– A que fiz!
– Fez pergunta?
– Sim!
– Quando?
– Agora mesmo!
– Não ouvi.
– Claro que não! Vive com a cabeça na Lua!
– …Refaça a pergunta.
– Falava de nossa miséria… do trabalhar para comer… do não ter nada de valor… Não te inquieta ter tudo faltando, homem de Deus?
– Pois não eu digo que não falta-me nada.
(A menina lamúria tropeça) – Como não?!
– Estou satisfeito.
– (saltou) Impossível! (continuou) Não existe ninguém satisfeito neste mundo! Todos estão precisando de alguma coisa: Uma roupa, um carro, uma viagem, um romance, um emprego, uma promoção no emprego… (numa obstinação da falta) Alguma coisa está te faltando, pode me dizer! Vamos! Diga-me logo e dou-lhe uma moeda!
– Pois não há nada faltando, mesmo.

Atravessávamos uma rua. Chegando à outra margem, a conversa emudeceu (se você não tem do que reclamar , não tem o que conversar com Beatriz. Na verdade, noto ser assim com muita gente) Dei então a explicar o escandaloso contentamento:

– Veja, Bia (sim, tentei acalenta-la), a única escassez que enxergo é a de gratidão.
– Escassez de gratidão?
– Sim. Temos tudo o que precisamos. E mais: – Temos até mesmo o que não precisamos.
– Tudo o que?
– Para começar do começo, a donzela está aí, cheia de vida, falando pelos cotovelos…
– E o que tem?
– Diga-me que grande mérito você teve para vir à vida; qual foi a sua parcela de participação? Qual foi o seu grande esforço? Nenhum, evidentemente. Foi-lhe dado, de mão beijada. No entanto, não agradece, e até mesmo amaldiçoa.
– …
– Sem contar o fato de viver como Rainha.As rainhas de outrora não tinham o seu conforto, não tinham suas facilidades. Para ser trivial, não tinham ventiladores, ar condicionado, conduções a motor, vias asfaltadas, toda especie de alimento disponível em mercados próximos, comunicação imediata por telefones, TV, internet, todas as músicas do mundo e todas as obras literárias do mundo acessíveis a um clique de botão… Se eu fosse enumerar todas as coisas, acabaria falando mais do que você. Mas como sabe, sou taciturno.
– É, olhando por esse lado eu até tenho algumas coisas…
– E não aproveita nenhuma delas. Na verdade, é isto mesmo que te perturba: – Tem tudo, não realiza nada.
– Que horror! Não precisa ofender!
– Perdão, meu doce; não pretendia ofender. Aliás, isso me lembra a acurácia de uma máxima Judaica: – Uma palavra pode valer uma moeda. Mas o silêncio vale duas…

Coragem Olímpica

“Desculpem o transtorno”

“Desculpem o transtorno”, dizem placas por todos os lados, com irrepreensível perspicácia. – “Trecho em obras”. Nos últimos anos, há muitos trechos em obras no Rio de Janeiro. Sim: – A cidade maravilhosa passa por retoques (e as vezes a emenda sai pior do que o Soneto, mas isto não vem ao caso.)

Sediamos a Copa do Mundo. Sediamos a Alemanha. E sediamos os 7 gols da Alemanha. Agora, sediaremos as Olimpíadas: – Maior evento esportivo do Planeta, confortavelmente instalado entre as maiores regiões favelizadas do Planeta. Algo excitante, não podemos negar.

Mas não falarei de Olimpíadas e não falarei de Obras, recordarei aqui  ocasião extraordinária. Ocasião em que acompanhei um amigo em sua aula de Filosofia, em uma faculdade pública do Estado do Rio de Janeiro. O amigo: – Horácio.

Estava chovendo no dia. Lembro-me bem: Eu e Horácio nadávamos à enchente, como Michael Phelps fará em nossas piscinas Olímpicas. Haviam obras – as citadas no inicio – e estas nos proporcionaram as piscinas. Após uma centena de braçadas, chegamos à sala onde a aula seria ministrada.

Havia poucos alunos  (nem todos são bons nadadores)  e havia também um professor. Com uma barra de giz em mãos, defronte a um quadro negro vazio, ele desenhava o número “6” e o número “9”, este após aquele. Terminara de desenhar e nos olhava. Nós o olhavamos e ele nos olhava. (havia um certo magnetismo no ar) Enfim, lecionou:

– Observem como a percepção humana é falha. Com apenas um giro, o nove vira seis e o seis vira nove. Vendo por um angulo; – é 9. Por outro; – é 6. Assim também é a Realidade, muda conforme a percepção do espectador. Percepção esta, precária. Precária por natureza.

Como disse, estava chovendo. Estava chovendo e toda e qualquer poça que habitasse calçadas afora certamente eram mais profundas que aquele bisonho pensamento, mal e porcamente extraído de algo semelhante ao anão prussiano Immanuel Kant. (“semelhante” e aqui coloco aspas. Coloco duas por apelo gramatical, mas colocaria 4 ou 6 aspas. Talvez 8, dada a distância abissal)

Os alunos observavam o professor. Alguns, realmente achando o pensamento um tanto quanto engenhoso, meditavam: – De fato, vira-se o 6 e este torna-se 9. Daqui vejo 6, de lá um amigo vê 9. Tudo é questão do ponto do observador! Da percepção do observador! Brilhante!

(O leitor deve estar se perguntando: – Miceli, como sabe o que os alunos pensavam? A resposta: – Li nos olhos. Vi o deslumbre nos olhos. Deslumbre característico de quando encontra-se um subterfúgio engenhoso para negar a Realidade. As pessoas – no geral, e não sei bem o porquê – não gostam da Realidade. Toda e qualquer anedota do tipo faz sucesso, especialmente em faculdades brasileiras.)

Como ninguém objetou, objetei, com a Coragem Olímpica do não-aluno:

– Discordo.

Horácio tocou-me o braço como quem diz: – “Não faça isso, rapaz” Havia temor em seus olhos; temor em seus redondos olhos grandes. Não entendi bem o porquê, mas viria a descobrir.

– Desculpe? (indaga o professor, talvez nunca antes contrariado em toda sua carreira universitária)
– Discordo. (insisto)
– Quem é você?
– Miceli.
– Quem é Miceli?
– Sou eu.
– …De onde você é?
– Rio de Janeiro.
– Digo, de que curso? Meu aluno sei que não é…
– Não sou. E também não faço nenhum outro curso.
– O que faz ?
– Comerciante.
– E o que um comerciante faz em minha aula?
– Acompanho Horácio.
– E quem é Horácio?
– Seu aluno.

– … (Professor)
– … (Eu)
– … (Horácio)

– Está certo. Por que discorda, comerciante?
– Se eu confundisse o 9 com o 6 na hora de te dar um troco, o senhor não perceberia?
– Perceberia, evidentemente.
– Pois então. Há uma diferença substancial entre a quantidade representada pelo símbolo 6 e a quantidade representada pelo símbolo 9. O fato de você usar de ilusão de ótica para confundir a percepção dos símbolos não muda as quantidades substanciais as quais estes símbolos se referem: 6 peras + 6 peras = 12 peras. 9 peras + 6 peras = 15 peras. Nenhum giro de número muda esta relação de quantidades.

Nisto, houve um clarão. Raios, trovoadas… janelas vibraram. O Vento uivou. A Realidade batia à janela e sua presença era aterradora, ao menos aos desacostumados. O professor deixou o toco de giz cair ao chão. Olhos arregalados, passou a mão nos lábios, salivando copiosamente (não sei se pensava, ou odiava)

Horácio olhou-me com os mesmos olhos grandes de outrora. Desta vez, li: – “Morreremos”. Respondi com o olhar: – “Não morreremos” (ou tentei responder. No entanto, Horácio permaneceu na opinião que morreríamos, mantendo o olhar apavorado.)

Então, a providência nos salvou: – Chega uma assessora, uma funcionária; não sei o que era. Chega uma senhora. Diz: – Não há necessidade de aula. São poucos os alunos e a condição fora do campus é calamitosa. Estamos liberando os alunos.

O professor mantinha seus olhos esbugalhados em minha direção e a salivação era intensa. Horácio mantinha os redondos olhos grandes apavorados. Os demais alunos pareciam confusos, atordoados (de fato, alguns babavam e davam cabeçadas em mesas duras)

Saímos dali.

Após algumas horas ilhados, enfim deixamos o campus. Já à distância segura, falei à Horácio:

– Não disse que não morreríamos?
– Disse?
– Sim
– Quando ?
– Quando te olhei.
– Pois não entendi nada disso.
– Como não? Fiz assim!

E passei os 30 segundos seguintes tentando falar com os olhos.

O Mestre das Letras

Tempos atrás interessei-me por Filosofia. Adquiri pilhas de livros, de diversos autores. Desde o digníssimo Platão e seu contemporâneo Aristoteles, até filósofos atuais como o inglês conservador Roger Scruton e o Fenomenologista
francês Michel henry, isto passando por todos os grandes nomes da História da Filosofia: Hegel, Kant, Schopenhauer, o diabo) Obviamente, hoje estes livros servem-me bem para suportar e apoiar objetos. No mais, coleciono ácaros (embora não consiga apreciar a coleção a olho nú)

Mas eis que a fase me rendeu um acontecimento interessante. A essa altura, apetecia-me aprender Latim. Sim, Latim. Entre todos os proeminentes filósofos, havia Agostinho e havia Tomás de Aquino. E houve interesse em lê-los, o mais próximo do original. (fetiche pessoal jamais alcançado; nem com esses autores, nem com nenhum outro – salvo os que escrevem em Inglês, Italiano ou Português)

Então, decidi-me: – “Aprendo Latim, e leio. Leio estes autores e leio todos os outros que publicaram obras em Latim. E se faltarem obras em Latim para ler, escrevo eu as minhas próprias” Para isso, contactei um grandioso amigo meu do Mundo das Letras, de anoso nome : – Otacílio. Otacílio é professor; Otacílio é professor de Latim. Otacílio dá aulas em faculdades publicas do Estado do Rio de Janeiro. Otacílio, como disse, é Mestre: – O  Mestre das Letras.

Eis que manipulei o Mestre das Letras e convenci-o a dar-me aulas; aulas particulares de Latim, a preço modesto (vale ressaltar a fraternidade) E tive aulas: Duas, três.. Na quarta (ou na quinta) houve o acontecimento; acontecimento grandioso que não abalou de todo a fraternidade, mas que pôs fim à Epopeia Latina, quando esta ainda engatinhava em suas primeiras declinações (De fato, o acontecimento foi uma das maiores decepções que tive em minha flagelada vida intelectual.)

E o acontecimento foi este: -Conversávamos. (Ponto inicial e fundamental para toda e qualquer discordância fatal) Conversávamos sobre a miséria cultural atual no Brasil. Alias, só eu conversava sobre a miséria cultural atual no Brasil. Este é o ponto. Para Otacílio, não há crise. A cultura brasileira está saudável e passa bem. E mais: – Enfim é Cultura genuína.

Explico-me. Estava eu, de olhos rútilos, veia jugular ingurgitada, falando com as mãos (como todo bom Italiano, ou todo bom descendente de Italianos, ou todo bom pseudo-Italiano), manifestando toda minha revolta contra o emprego, hoje comum, do “a gente vamo”, do “nós vai”. Pulava na cadeira, e Otacílio permanecia impassível. Quando muito, ajeitava a lente do óculos circular, comedido em sua intelectualidade superior (Eu já disse que o professor é um Mestre das Letras? Pois repito: – Otacílio, Mestre das Letras)

Por fim, passada toda minha descompostura Italiana (ou pseudo-italiana), Otacílio se manifesta: – “Veja bem, Miceli. Onde você vê erro, eu vejo manifestação cultural” Pasmei, incapaz de articular uma palavra sequer. E ele prosseguiu, implacável em escandalizar-me: – “Não há nada de errado com ‘nós vai’ e com ‘a gente vamo’. O importante é se fazer entender.” Repetiu: – “O importante é se fazer entender.”

Passou uma brisa. Arvores farfalharam. Caíram amêndoas. Ao recuperar-me do transe, lembro-me de ter objetado algo: – “Que voltemos então ao tempo das cavernas! Afinal, com grunhidos também nos comunicávamos; com mímicas mudas também nos fazíamos entender!” Lembro vagamente de toda esta indignação inútil, impotente e, se considerarmos a espessa intransponibilidade da “superioridade intelectual” do interlocutor, até mesmo patética.

Mas não vou aqui esforçar-me em reconstituir os fatos. Em recordar essa ou aquela objeção que veio-me à mente, conduzidas por um arrebatamento do horror. Na verdade, eis que aprendi uma coisa: – O óbvio não pode ser discutido. O óbvio não é matéria de discussão. As absurdidades devem ser rechaçadas, “in limine”.

Evidentemente esta foi minha quarta (ou quinta) e última aula. Terminara a Epopeia Latina. De tudo o que aprendi, ao menos uma frase Latina ficou: – “Dementis convitia nihil facias.”