Classe pobre coitada

Não se decepcionem com artistas aderindo a campanhas esdrúxulas, cedendo a grupos de pressão ou sendo pagos para apoiar este ou aquele presidenciável. Artista é uma condição existencial das mais inúteis do mundo. A verdade é que ninguém REALMENTE precisa de uma musica bem cantada, um papel bem representado ou um texto bem escrito. Estas são “futilidades”; entretenimento que só quem já tem todas as necessidades básicas atendidas aprecia nas horas vagas. Você pode passar uma semana sem ouvir esta ou aquela música, sem ver este ou aquele filme ou seriado, sem ler este ou aquele livro. Mas não passará uma semana sem se alimentar, sem um teto sobre a sua cabeça, sem coleta de lixo, etc. etc. Há inúmeras ocupações muito mais simples, nada badaladas, mas NECESSÁRIAS. Nada que um artista faz é NECESSÁRIO.

Daí que a condição de inútil é muito incômoda, meus amigos, especialmente numa organização social pragmática como a nossa, em que utilidade é tudo. O artista é um incapaz financeiro e sabe que é incapaz. Se ninguém vai com a cara dele e não investe em seu “talento”, ele termina bebendo água do meio fio. Mozart, Van Gogh, Schubert, os exemplos são muitos.. de gênios que morreram na mais completa miséria (e se gênios morrem na mais completa miséria, imaginem os “mais ou menos”; os medíocres, os medianos?)

È imprescindível, então, “se prostituir”; agradar o máximo de pessoas possível, para ter o máximo de ajuda possível. Ou então, “agradar às pessoas certas”. É exatamente o que esses artistas fazem: agradam quem sustenta suas carreiras; agradam quem dá o dinheiro para sobrevivência. Hoje em dia, todo establishment é progressista; de Esquerda. Fosse conservador, vocês veriam 90% dos artistas nacionais com a hashtag “Bolsonaro 2018”

É claro que há exceções dos que, mesmo comendo o pão que o diabo amassou, não se vendem. Seja por motivos morais, por orgulho, por teimosia etc., etc. Para dar um testemunho pessoal, nasci apenas com “talentos” inuteis. Desde pequeno, toco diversos instrumentos musicais. Para que? Nada, evidentemente. Depois descobri que escrevo de uma forma que – sabe-se lá por que – prende a atenção das pessoas. E para que isso serve mesmo? Nada, evidentemente. Se ninguém me achar bonito, simpático, ou achar algum valor subjetivo no que faço, eu passo fome (é claro que tenho outras ocupações emergenciais, mas falo estritamente da vida “artistica”) Portanto, o artista que não “se vende”, não tem nada p’ra vender. Você pode comprar uma cadeira de um sujeito pelo qual não sente nenhuma simpatia, mas dificilmente vai ouvir uma música, ver um filme ou ler um livro de um sujeito com quem não vai com a cara. Muitas vezes você se identifica com o artista primeiro e só então se identifica com a obra que ele faz depois, de forma que é difícil dissociar uma coisa da outra. A primeira preocupação do artista é ser bem quisto. Enfim, sem me estender por demais, a moral da história é a seguinte: o artista é um pobre coitado.

Publicado por

O Lenho Verde

"Aquele que fala por si mesmo está buscando o seu próprio prestígio. Mas quem busca o prestígio daquele que o enviou é verdadeiro, e nele não há falsidade."

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