Ser ou não ser

– Então, Miceli, desculpe por marcar a entrevista para um sábado à noite. Ainda mais a essa hora… Mas foi a única janela que encontrei na minha agenda disputadíssima…
– Entendo… Sem problemas.
– Imagino que tivesse coisa melhor p’ra fazer, não? Há muitas mulheres bonitas no Rio de Janeiro…
(Demo Danado) – Puff.
– Enfim, vi que você é um leitor inveterado de Shakespeare, e como escreve direitinho, tenho uma proposta a fazer…
– Faça.
– Tenho uma releitura de Hamlet em mente…
– Releitura?
– Sim. (Ele confirma. Eu começo a suar) Na estória original, o Pai de Hamlet morre, a Mãe casa com seu Tio, e Hamlet suspeita que o Tio mandara matar seu Pai para roubar a coroa. Aí começa todo um conflito por vingança… Além de Hamlet ter um caso de amor com Ofélia que torna-se proibido…
– SIm. Eu conheço a peça…
– Claro que conhece. Sei que é um especialista mas… é que as vezes não parece… (acende um cigarro. Olha atravessado) É um rapaz tão bonito, jovem… Geralmente rapazes bonitos e jovens não sentem-se atraidos por literatura…
(Demo Danado) – Gay.
– Voltemos à peça, por favor… (derramando água no copo. Bebo, levemente desconfortável)
– Claro… A minha ideia é a seguinte: Não é o Pai de Hamlet que morre, mas sim a Mãe. E não é o Tio que mata; mas sim o próprio Pai, que mata a Mãe (sua esposa), pra ficar com o Tio… Você entende?
– …
– É uma releitura revolucionária, não? Tenho certeza que você é o homem certo para escrevê-la…
– Talvez não.
– Não seja bobo! E quanto ao solilóquio mais famoso do mundo? “Ser ou não ser, eis a questão…” Hamlet estaria pensando justamente em ser ou não ser gay, igual ao pai! Tem tudo a ver! Ah! E é claro: substituiríamos a personagem Ofélia por Matoso: Matoso seria o caso amoroso de Hamlet…
– …
– Assim como Ofelia se mata quando o romance com Hamlet acaba mal, Matoso se mata, quando Hamlet resolve virar homem…
– …
– E essa seria a grande tragédia da peça: Hamlet decidindo ser homem!
– …
– O que acha?
– Acho que estou me sentindo um pouco mal…
– Pressão?
– Deve ser…
– Toma aqui o saquinho do sal… quer que eu te dê na boca?
– …Não será necessário (afastando o gesto) Se o senhor me dá licença, preciso ir até o banheiro…
– Claro, Miceli. Vá lá. Mas não demore… (traga o cigarro, contemplando minhas costas com olhar atravessado) Gosto de homens com ombros largos…

Publicado por

O Lenho Verde

"Aquele que fala por si mesmo está buscando o seu próprio prestígio. Mas quem busca o prestígio daquele que o enviou é verdadeiro, e nele não há falsidade."

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