Morte como propaganda

Na minha época, quando um amigo próximo morria, havia choro e ranger de dentes. Dito de outro modo: – luto absoluto. Hoje nós vemos “amigos próximos” e “companheiros de viagem” reunindo-se não para uma vigília pela alma do morto, mas sim para um comício. A jovem morre e não se fala uma palavra sobre lágrimas, familia, dor… mas esperneia-se aos quatro ventos que tratava-se de uma mulher “negra, homossexual e vinda de periferia”, que “vai ter luta”, que o “movimento está mais forte do que nunca”, etc., etc. É a capitalização instântanea e imediata da desgraça alheia; o uso covarde de um cadáver como combustível; cadáver que mal esfriou. A militância que se diz a favor dos “Direitos Humanos” não permite sequer que uma jovem morra em paz, sem imprimi-la numa bandeira colorida e tremulá-la sobre um palanque ruidoso em plena praça pública como propaganda.

Publicado por

O Lenho Verde

"Aquele que fala por si mesmo está buscando o seu próprio prestígio. Mas quem busca o prestígio daquele que o enviou é verdadeiro, e nele não há falsidade."

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