Nove noites de amor

– Então, Miceli, nós vimos o seu currículo; seu site nos serviu como portfólio, e achamos bem interessante o seu trabalho.
– Obrigado.
– No entanto, nós estamos no Brasil e ninguém se interessa por estes assuntos no Brasil: Teologia, Filosofia, Política… (Pausa para acender um cigarro) Estamos pensando em trabalhar com algo mais apimentado, mais apelativo (fuma) Algo como… pornô, por exemplo. Ou melhor, “contos eróticos”
– …
– Nós vimos que você trabalha muito com diálogos, ambientações, personagens… deve ser um bom contista. No mais, uma de nossas assessoras disse que você tem “cara de safado”
– …
– Mas é claro que essa é uma percepção muito subjetiva…
– …
– Nós estávamos pensando num romance político/jurídico Gay: um juiz envolve-se amorosamente com um réu operário de nove dedos e tem uma tórrida noite de amor num triplex no Guarujá.
-…
– O título seria “Nove noites de amor; uma para cada dedo”
– …
– Não sei se notou, mas faz referência ao cenário politico atual… (falando baixo, apagando o cigarro no cinzeiro) Seriamos vistos como um “Pornô cult”
– …
– Além do conto ser um ode à união; um simbolo de tolerância entre as pessoas que estão muito polarizadas, você não acha? Afinal, o juiz e o operario se amariam…
– …
– O que me diz?
– Com todo respeito, senhor…
– Matoso.
– Isso. Matoso. Com todo respeito, senhor Matoso (ajeitando-me na cadeira) Contos eróticos não são da minha alçada.
– Por que não?
– Não trabalho com contos eróticos…
– Já sei. Está recusando o trabalho por se tratar de um romance homossexual… É homofobico, senhor Miceli?
– Não, senhor.
– É racista? Porque nosso juiz e nosso operário seriam negros… Será nossa “releitura histórica”
– …Também não seria este o motivo.
– O que é então? Não gosta de dinheiro? Porque pornografia, no Brasil, dá dinheiro. O conto poderia virar filme… você mesmo poderia adaptar um roteiro para o filme… Há futuro, Miceli, há futuro! Já essas lenga-lengas de Filosofia , Teologia, não têm futuro… pelo menos não no Brasil. Quem lê essas porcarias?
– …Isto é verdade…
– Então, Topa?
– Lamentavelmente não será possível, senhor Matoso. Mas agradeço por entrar em contato… (estendendo a mão para cumprimentá-lo)
(Demo Danado) – Tá vendo? É um ingrato mesmo! Depois diz que não te ajudo com boas oportunidades…

Publicado por

O Lenho Verde

"Aquele que fala por si mesmo está buscando o seu próprio prestígio. Mas quem busca o prestígio daquele que o enviou é verdadeiro, e nele não há falsidade."

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