Assombro do pudor

Para um carioca conservador, receber pessoas de outros Estados é uma experiência paradoxal. Por um lado, fica-se feliz em saber que nem todas as mentes brasileiras estão embotadas e pervertidas. Por outro, é extremamente deprimente ver o abismo que há entre a formação de pessoas de fora e a formação de pessoas nascidas e criadas no Rio de Janeiro.

Por exemplo, ontem encontrei duas mocinhas que mais pareciam dois poços de candura. Ambas paulistas, ambas conservadoras (por assim dizer), e ambas – cada uma a seu modo – extremamente interessantes, de modo que você poderia tranquilamente passar duas, cinco ou dez horas conversando com elas, sem nenhuma espécie de flerte, sem nenhuma espécie de entorpecente (como litros de álcool), e ainda assim a conversa soaria extremamente interessante e prazerosa, dado o conteúdo, a simpatia desinteressada, e – por que não dizer? – a “ingenuidade”. E eis o que me causou o maior assombro dentre todas as impressões: A ingenuidade. De fato, em trinta e três anos de Rio de Janeiro, nunca encontrara uma mulher ingenua. E súbito percebo: – O que há de mais amável (e até sensual) numa mulher, é o pudor.

Mas é claro que toda visita chega ao fim e é claro que continuo ainda no Rio de Janeiro. E é claro que continuo esbarrando em mocinhas cariocas. Nada contra, nada contra… Mas os assuntos, as mentalidades, “a cerva”, o “baseadinho”, o PSOL, o Feminismo, o “proibidão”, o “sertanejo universitário”, são sempre os mesmos; estão sempre lá. E até aconteceu que, depois da agradável experiencia do pudor, eu encontrasse com uma mocinha “nativa” do Rio de Janeiro na mesma noite. Puro sangue. E conversa vai, e conversa vem. E ela tinha feito pós graduação em IGUALDADE DE GÊNERO, e estava ali na terceira ou quarta “CAIPIVODKA”. Para arrematar, convidou-me para um debate de ideias do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) Então eu tive de sentar cerimoniosamente no meio fio da calçada. Pus as mãos no rosto e comecei a chorar.

Publicado por

O Lenho Verde

"Aquele que fala por si mesmo está buscando o seu próprio prestígio. Mas quem busca o prestígio daquele que o enviou é verdadeiro, e nele não há falsidade."

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