Escritor inanimado

Peço a D’us que eu nunca faça sucesso como escritor. Digo isto porque, após tirar uma primeira foto como uma primeira “fã”, minha alma foi roubada e não consigo escrever uma linha sequer (Maquinas fotográficas realmente roubam almas, como acreditavam os antigos. O referido é verdade e dou fé) Estava eu na fila do supermercado, quando uma bela donzela abordou-me e constatou: “Você é o Miceli!” Tive de concordar: “Sim” Ela prosseguiu:

– Foi difícil reconhecer porque você só tem foto ruim no Facebook!
– …
– Mas, poxa, que legal, eu gosto das coisas que você escreve!
– Que bom (meio sorriso amarelo, passando as compras e muito preocupado em estourar o orçamento)
– Posso tirar uma foto?
– Como?
– Uma foto! Agora ninguém te conhece, mas vai que… nunca se sabe!
– …
– Tem tanta gente estranha fazendo sucesso hoje em dia!
– …
– Vem cá, tira aqui (clique de um flash invisível) Pronto! Obrigada, senhor Miceli! (beijo estalado na bochecha)

Então fiquei muito feliz. O total das compras deu um pouco mais do que eu esperava. A caixa notou e sugeriu:

– “Tiro algo, senhor?”
(Respondo, com gravidade) – “Não. Sou um escritor famoso. É claro que posso levar tudo.”
– “Débito ou crédito?”
– “Crédito; o maior número de vezes”
– …

Voltei então para casa e fiz o meu primeiro lanche como escritor famoso (salvo engano, o queijo estava mais saboroso. O pão, também. Isto para não falar da água…) Sentei à mesa para trabalhar e iniciei: LAUDA UM… Percebi, então, que estava paralisado. O mundo irrompia em guerras, a política em escândalos, polêmicas irresolvíveis pululavam nas manchetes dos jornais, e eu lá, paralisado, numa aridez autoral de três desertos. Passou-se um dia, dois, sem que nada mudasse a absolutamente nada fosse escrito. Liguei então para menina – que em troca da foto, passara-me caridosamente seu número de whatsapp – e pedi:

– Fulana, a senhorita ainda tem a minha foto?
– Mas é claro, senhor Miceli! Está aqui, para posteridade!
– Pois apague.
– Apagar? De maneira alguma! Por que eu apagaria a nossa foto?
– Estou precisando da minha alma de volta para trabalhar…

Publicado por

O Lenho Verde

"Aquele que fala por si mesmo está buscando o seu próprio prestígio. Mas quem busca o prestígio daquele que o enviou é verdadeiro, e nele não há falsidade."

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