Vim aqui porque pequei

Como todos sabem – apesar de escrever inúmeras vezes em defesa do Cristianismo -, não sou Cristão.

(Demo Danado) – É judeu… Raça de víboras! Como escaparão da condenação ao inferno?!

Demo, por favor.

(Demo Danado) – Desculpe. Continue.

Como eu ia dizendo, apesar de não ser cristão, o fato é que frequentei um colégio religioso cristão da quinta série do fundamental até o terceiro ano do Ensino médio. E lembro bem do meu primeiro ato de confissão, muito bem assessorado por uma freira que me instruiu candidamente:

– Menino Miceli, assim que você chegar ao Padre, você terá que dizer assim: “Padre, vim aqui porque pequei”
– Certo.
– Repita.
– “Padre, vim aqui porque pequei.”
– Isto mesmo.

Salvo engano, estava eu em preparação para primeira comunhão. Chegou então o momento derradeiro, entrei no confessionário da capela do colégio e, muito obediente, recitei o introito ensinado:

– Padre, vim aqui porque pequei…
– Todos nós pecamos, meu filho.
– Sim.
– O que você fez?
– (pensei um pouco e respondi) Cometi bullying com amigos. Roubei na troca de figurinhas dos Cavaleiros do Zodíaco. Esperei as meninas subirem na frente na escada para olhar por debaixo da saia.
– Que demônio!
– Como?
– …Nada, dócil criança. Sabe rezar Pai Nosso e Ave Maria?
– Em Latim, Italiano e Português.
– Reza em Latim que é mais poderoso e você está precisando.
– Sim, senhor.

Mas o pior não foi isso. Eu não sei se está de acordo com as normas da Igreja, mas o fato é que eu tive um pequeno “ensaio” da primeira comunhão, antes mesmo do sacramento “oficial”. E nele, cometi o maior sacrilégio da minha então breve vida: cuspi a hóstia.

(Demo Danado) – Foi neste momento que eu “encostei”…

E apresso-me aqui para pedir piedade pela minha pobre alma, pois além deu não saber exatamente o que significava na época, não cometi o ultraje por maldade; o gosto estava realmente horrível. Enfim, como se não bastasse a profanação em si – capaz de me mandar para os confins do inferno por si só – o Padre, aquele que tinha realizado a minha confissão, viu-me passando a hóstia na bermuda. Do outro lado da capela, bradou: “Tem demônio!” Eu não entendi. Ele insistiu: “Este menino é um endemoniado!” Formou-se então uma turba ruidosa, e só fui salvo por uma freira que gostava muito de mim. Ela me puxou de lado, deu-me um tapa na boca e disse:

– Menino Miceli, você acabou de cuspir o corpo do Nosso Senhor Jesus Cristo! Isto é muito errado!
– …
– Eu vou te dar outro… E desta vez você engole!

Publicado por

O Lenho Verde

"Aquele que fala por si mesmo está buscando o seu próprio prestígio. Mas quem busca o prestígio daquele que o enviou é verdadeiro, e nele não há falsidade."

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