Carrocinha de cachorro quente

Dentre minhas atividades “não-convencionais” para reunir material para meus escritos, está a incursão nas chamadas “áreas de risco” (tais como campus de faculdade ou comunidades assoladas pelo crime no Estado do Rio de Janeiro) E, para minha surpresa, num destes últimos trabalhos, descobri que até mesmo um marginal – que muito gentilmente concedeu-me uma entrevista – disse que apoiava uma Intervenção Militar. Segue trecho da entrevista abaixo:

– Eu, Miceli, sinceramente… (pausa para baixar o volume que tocava Pablo Vittar) Só um minuto.. (sintoniza radio MEC FM. Toca Luigi Boccherini) Assim está melhor.
– …
– Como eu ia dizendo, sinceramente, perdi todo o tesão em ser bandido no Brasil.
– E por que perderia, senhor? Vocês estão no auge e…
– Justamente por isso! Veja bem: para se quebrar uma regra, é necessário que haja uma regra para ser quebrada antes… Para ser fora da Lei, é preciso que haja uma Lei! E no Brasil a Lei é roubar!
– …
– Vou te confessar uma coisa (se aproxima, inclinando sobre a mesa) Ultimamente tenho pensado até em arrumar um emprego; ser trabalhador…
– …
– Montar uma carrocinha de cachorro quente…
– …
– E aí virão os guardas municipais: “É proibido trabalhar! É proibido trabalhar!” Virão pegar as minhas coisas…
– …
– E eu serei preso gritando: “Tenho que pagar as minhas contas! Estes pães que vocês estão apreendendo é para o leite dos meus filhos! Ahhh!” (faz os gestos)
– …
– Só de pensar em ter todo o Estado Brasileiro contra mim, dá uma adrenalina imensa!
– …
– Então é isso, Miceli. Se os militares não vierem botar ordem nesta bagunça, eu vou largar o tráfico, e vou para o mundo do verdadeiro crime.
– …

Nota: A fala do entrevistado passou por um processo precário de tradução, pois nos guetos cariocas não se fala Português. É possível, então, que tenha havido alguma perda de significado.

Publicado por

O Lenho Verde

"Aquele que fala por si mesmo está buscando o seu próprio prestígio. Mas quem busca o prestígio daquele que o enviou é verdadeiro, e nele não há falsidade."

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