Midrashê Shabat XI

“Não pensem que vim trazer paz na terra. Não vim trazer a paz, mas a espada. Pois vim para que o homem fique contra o seu Pai, a filha contra a sua Mãe e a nora contra sua sogra. Os inimigos do Homem serão os da sua própria família. Quem ama o seu Pai ou sua Mãe mais do que a mim não é digno de mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim. Quem não toma o seu fardo e não me segue, não é digno de mim. Quem preza por sua vida a perderá. E quem abre mão de sua vida, por minha causa, a encontrá.”

Este é um longo dito de Jesus, preservado no livro de Mateus , Capítulo 10, versículos 34 a 39, pouco lembrado e muito polêmico. À primeira vista, é um dito de difícil compreensão, causando até mesmo alguma relutância em reconhecer estas duras palavras como sendo daquele ao redor do qual criou-se uma imagem brilhantina de “paz e amor” universal. De fato, Jesus prega sobretudo o amor entre os irmãos. Mas sua concepção de amor e a concepção de amor entre os chamados “gentios” é completamente diferente. Segundo as próprias palavras de Jesus: – “Aquilo que é elevado para os homens, é abominável para D’us”

Mas vamos nos ater ao dito em questão; o debate sobre a real conotação de amor às vistas de Jesus exigiria um outro estudo em separado. A ideia que o dito selecionado encerra, apesar de dura, é na verdade muito simples: – Aquele que conhece de fato os ensinamentos de Jesus e busca segui-los – não verborragicamente mas na prática – enfrenta mil e uma dificuldades e inadequações, inclusive dentro da própria família. Isto ocorre justamente pelo dito relembrado acima: – “Aquilo que é elevado para os homens, é abominável para D’us”. A grande maioria das pessoas vive de acordo com o senso comum de sua época; vive os costumes vigentes. Estão apegados à tradições antigas ou a novíssimas modas que não necessariamente condizem com as praticas incentivadas por Jesus. Muito pelo contrário: – Geralmente um cristão, ou um judeu que reconheceu Yeshua (Jesus) como Messias (como é o caso dos Ebionitas, que guardam as Leis de Moshe (Moisés) e o testemunho de Yeshua) vão na contramão da grande maioria das tendências.

Além deste confronto entre a nova mensagem aprendida e toda uma tradição da comunidade, há ainda os conflitos internos familiares, tão peculiares e tão bem conhecidos. É sabida a importância de uma casa em que todos tenham uma relação harmoniosa. Como o próprio Jesus diz: – “Uma casa dividida não prevalecerá”. Mas também é sabido que muitas vezes os piores conflitos que encerram a vida de um indivíduo vem de seu próprio ambiente familiar: Um mau relacionamento com o Pai, com a Mãe, com um filho, com uma filha, com irmãos, etc., etc. De algum modo, nós somos lapidados pelo meio familiar em que vivemos, e muitas vezes o sujeito afoga-se neste conturbado meio, não conseguindo sequer nascer para o mundo. De fato, isto é muito comum especialmente nos dias atuais: – O sujeito perde-se e é dragado pelo caos familiar antes mesmo de sair para o Mundo e viver sua própria vida.

Há também um outro dito de Jesus relacionado a toda esta problemática: – “Só em sua própria terra; em sua própria casa o Profeta não tem honra”. Jesus mesmo foi desacreditado por irmãos, parentes, amigos próximos, não conseguindo inclusive obter êxito entre os seus mais chegados; na comunidade local. Todos viam o Homem crescido e amadurecido, realizando sinais e encerrando grande sabedoria, mas não conseguiam atribuir toda aquela pujança espiritual ao pequeno rapaz que havia crescido ali nas redondezas, diante de seus olhos (vide Mateus, Capítulo 13, versículos 53 a 57 e outros trechos) Muitas vezes isto ocorre também conosco: Seja por incredulidade, desconfiança ou até mesmo por uma especie de ciumes ou inveja, aquele que está próximo não reconhece seu crescimento e seu valor, e você colhe o fruto de realizações com pessoas distantes, recém chegadas ao seu convívio. – “Só em sua própria casa, em sua própria terra é que o profeta não tem honra”

A frase que encerra o longo dito selecionado neste Midrashê Shabat XI talvez seja a fundamental e de maior importância: – “Quem preza por sua vida a perderá. E quem abre mão de sua vida, por minha causa, a encontrá.” Tudo que foi dito, foi dito no âmbito geral; de tradições, crenças e hábitos de uma comunidade. Também tradições, crenças e hábitos familiares, etc., etc. Mas estas influências, evidentemente, incidem sobre o homem individual. Geralmente o Homem constrói sua personalidade com base nestes elementos, de modo que não reconheceria a si mesmo de outra forma: – Uma mudança de hábitos, de uma maneira de pensar, seria praticamente uma despersonalização. E, de fato, sob certos aspectos, é mesmo. É impossível você mudar verdadeiramente sua forma de pensar e isto não se refletir nos seus hábitos diários, bem como em suas áreas de interesse. Não há como se dar uma mudança parcial, superficial, pois neste caso não há de fato uma mudança substantiva e real; haveria apenas um arranjo mentiroso, um inútil subterfúgio.

Portanto, quem valoriza por demais a própria vida tal como ela é no momento, apegados a modos de sentir, pensar e agir já pré-estabelecidos, dificilmente estará aberto à mudanças, de modo que suas reflexões – se feitas – dificilmente terão implicações práticas. Já aquele que busca sinceramente a Verdade, acima de toda e qualquer disposição pré-concebida, está pronto para rearranjar-se, para corrigir-se se necessário, e, no caso do quinhão ofertado por Jesus, conquista-lo merecidamente conhecendo então e finalmente a verdadeira Vida.

Publicado por

O Lenho Verde

"Aquele que fala por si mesmo está buscando o seu próprio prestígio. Mas quem busca o prestígio daquele que o enviou é verdadeiro, e nele não há falsidade."

Um comentário sobre “Midrashê Shabat XI”

  1. Foi um grande prazer encontrá-lo neste fim de semana, através do Facebook. Parabéns pelos excelentes textos que nos permite sair deste marasmo e mesmice que tomou conta do mundo de modo geral.

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