Midrashê Shabat X

– Tu te negas a responder-me? Não sabes que eu tenho autoridade para liberta-lo e poder para condena-lo?
– Não terias poder algum sobre mim se este não te fosse dado de cima.

Este é um pequeno diálogo entre Pôncio Pilatos, prefeito Romano da província da Judeia e Jesus, profeta judeu da Galileia, pouco antes do veredicto de sua condenação. Nele conferimos esta assertiva contundente na resposta de Jesus; de que todo e qualquer posição de poder é dada e retirada do Homem de acordo com a vontade de D’us. Tal ideia já estava explicitada no livro Tehilim, Salmo número 62, versículo 11, que nos diz:

“Uma vez declarou D’us e duas vezes eu ouvi: – Todo o poder pertence a D’us”

Poder-se-ia então perguntar: – “Ora, se Pilatos ocupava posto elevado e tinha poder de decisão sobre Judeus e sobre Jesus por permissão divina, por que estaria dando D’us esta permissão? Por que por o próprio povo sob julgo dos Romanos e entregar o seu Messias a humilhação e condenação?” Bom, evidentemente esta pergunta não é simples, de modo que uma resposta simples seria difícil. De todo modo, vale considerar alguns pontos:

I – A vinda do Messias já estava prescrita na Torá (Pentateuco, na nomenclatura Cristã) bem como e principalmente nos Neviim (testemunho dos profetas), de modo que a vinda de um Messias sofredor, que serviria de expiação para os pecados do povo Judeu já era aguardada. Toda a discussão entre aqueles que aceitaram Jesus como Messias e aqueles que negaram é justamente esta: – Se o nazareno era o Messias que havia de vir ou não.

II – A importância da morte de Jesus tem uma relevância muito profunda e está totalmente relacionada ao “sacrifício do cordeiro sem defeito” prescrito na Lei de Moisés, e a necessidade do derramamento de sangue deu-se por seu poder expiatório. No livro Vaicrá (Levítico), lemos esta noção de que o sangue faz expiação pela vida:

“Porque a vida da carne está no sangue. E esse sangue Eu o tenho dado a vós, para cumprirdes o ritual de expiação sobre o altar, pelas vossas vidas; pois é o sangue que faz expiação pela vida.”

Há esta noção de que os maus atos atraem sobre si a morte (já que nada vil pode subsistir em um mundo Justo e bom) Por suas transgressões, os homens acumulam sobre si dividas a serem pagas com seu próprio sangue, pois por sua vileza e seus maus atos, não poderiam permanecer no Mundo. Por este motivo, Judeus praticavam sacrifícios com sangue animal, para que a culpa recaísse sobre este sangue e para que eles próprios não morressem. Com o advento do Messias e do pagamento definitivo de nossas dívidas pelo imenso poder de seu sangue incorrupto, estes sacrifícios antes praticados no Templo já não são mais necessários.

III – O próprio Jesus tinha plena consciência de que, após um período de ensinamentos e conscientização dos seus irmãos do povo de Israel, bem como a preparação de discípulos que levariam seu testemunho pelo mundo afora, ele terminaria por ser sacrificado em Jerusalém, pois este eram os desígnios divinos e era necessário que assim fosse para que as Escrituras fossem cumpridas.

É curioso notar que até mesmo Caifás, sumo-sacerdote à época da execução de Jesus que geralmente é visto com maus olhos pelos Cristãos, parece ter perfeitamente em mente e de modo claro toda a importância salvífica do sacrifício do profeta. Ele diz, em uma reunião no Sinédrio:

“Vós falais do que não compreendeis (…) é do vosso interesse que morra um só homem pelo povo, e não pereça toda a nação.”

O evangelista conclui, como que destacando a divina inspiração deste insight por parte do sumo-sacerdote:

“(…) Ele não revelou isso de si mesmo, mas sendo o sumo-sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus morreria pelo povo de Israel. E não somente por aquela nação, mas também para congregar em um só povo os filhos de D’us que andam espalhados pelo mundo”

Em suma: – As Escrituras prediziam, Jesus tinha a consciência desta necessidade, e os sábios judeus reconheceram que assim deveria ser feito. Repetindo as palavras de Caifás: – “É necessário que um só homem morra pelo povo e não pereça toda a nação”

Esclarecido tudo isto de forma resumida e diria até corrida (porém, espero eu, não insuficiente) retornaremos à ideia essencial do dito de Jesus em si: “Não terias poder algum sobre mim se este não te fosse dado de cima.” Nenhum posto deste mundo é ocupado indevidamente. Diante disto pode surgir a objeção: – “E quanto a governantes injustos, corruptos? E quanto a líderes que oprimem o povo?” Bom, geralmente o povo faz por merecer. Observando-se bem uma questão como esta, nota-se muitas vezes que o líder apenas reflete a disposição geral de um povo. De modo que um povo corrupto, não raro, tem um governante corrupto acima de si.

Publicado por

O Lenho Verde

"Aquele que fala por si mesmo está buscando o seu próprio prestígio. Mas quem busca o prestígio daquele que o enviou é verdadeiro, e nele não há falsidade."

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