Midrashê Shabat VIII

“O que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, disse: – ‘Filho, vai trabalhar hoje na vinha’. Ele respondeu: – ‘Não quero’. Mas depois, tocado pelo arrependimento, foi. Dirigindo-se ao segundo, disse a mesma coisa. Este respondeu: – “Eu irei, senhor”; mas não foi. Qual dos dois realizou a vontade do pai? Responderam-lhe: – ‘O primeiro'”

Esta exposição feita por Jesus é popularmente conhecida como “Parábola dos dois filhos”. Está registrada no livro de Mateus, Capítulo 21, versículos 28 a 32. Nela, Jesus aborda um tema de suma importância para o Judaísmo: – A prática. O primeiro filho, apesar do discurso negativo, apesar de sua má vontade inicial, pelo arrependimento, termina por fazer o que o Pai ordenou. O segundo, apesar de receber a ordem com aparente animo e boa vontade, termina por não fazer o que foi ordenado, não fazendo assim a vontade do Pai. Evidentemente, o primeiro é exaltado.

Para facilitar o estudo desta passagem, poderíamos delinear – grosso modo – três níveis de atuação consciente do ser humano: – Pensamentos, palavras e ações. Jesus aborda a correção de todos estes níveis, mas deixa claro que o alicerce fundamental e também a finalidade última de todas as correções é a prática; ter ações concretas condizentes com suas corrigidas inclinações; condizentes com a vontade do Pai.

Vemos este apelo também na seguinte passagem, o encerramento do conhecido Sermão do Monte: – “Aquele que ouve as minhas palavras e as pratica, é como um homem sensato, que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, mas ela não caiu, porque tinha seus alicerces na rocha. Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as pratica, é como um insensato, que construiu sua casa sobre areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu, e foi grande a sua queda.” (Mateus 7.24-27)

Muitas vezes a pessoa que busca a correção, busca uma mudança, o faz com real entusiasmo por instruções, e as recebe com alegria e verdadeiras boas intenções. Assim como o segundo filho da Parábola Inicial, ele diz “Sim senhor” para tudo o que ouve, mas por algum motivo, termina por fazer algo diametralmente oposto do que lhe foi dito. Este seria, também, o “insensato”, citado na passagem acima. É aquele que ouve, aquele que recebe atentamente as instruções e até as guarda, mas não tem a firmeza de pô-las em prática. Acossado por intempéries da vida, todo este castelo de instruções, se não firmados no solo, se não fincados na sua rotina por práticas condizentes, termina por ruir estrondosamente.

Por outro lado, há pessoas resistentes ao aprendizado. Há pessoas que vivem combatendo suas próprias inclinações interiores, que tem estímulos e impulsos difíceis de serem administrados, e que muitas vezes vivem num turbilhão de pensamentos (nem todos adequados) além de não terem um discurso linear. No entanto, há algo, há uma intuição interior, há sensibilidade, há uma consciência que o impele a corrigir-se; que faz com que, por fim, ele termine fazendo a coisa certa. Seja por uma reflexão consciente, por arrependimento, por um “senso de dever” sempre presente, no final, ele faz o que tem que ser feito.

Evidentemente, o ideal é alinhar todas os seus níveis de atuação consciente: – É corrigir impulsos e pensamentos (sendo este o estágio final da correção pessoal, como exposto no Midrashê Shabat IV), corrigir seu discurso, suas palavras, e ter atos concretos corretos. Porém, muito dificilmente o Homem consegue estar plenamente alinhado e – excetuando-se os grandes mestres e santos – a ocorrência de um mal pensamento ou de uma palavra infeliz é praticamente inevitável. No entanto, neste mundo, as ações são as que acarretam as maiores consequências. Elas são o resultado final deste caminho: – Pensamento – Palavra – Ação, e são elas que realmente delineiam sua História.

Muitos tem auto-conceitos excelentes de si mesmos, em pensamento. Muitos tem excelente discursos, digno de grandes santos. Porém, quantos realmente agem de acordo? Muitas vezes, uma pessoa aparentemente “desalinhada”, é capaz de ações imensamente mais nobres do que estas. Por isso mesmo Jesus encerra a Parábola com o seguinte dito: – “Em verdade vos digo: – Muitos gentios e pecadores precederão os falsos observantes no Reino dos Céus”

Publicado por

O Lenho Verde

"Aquele que fala por si mesmo está buscando o seu próprio prestígio. Mas quem busca o prestígio daquele que o enviou é verdadeiro, e nele não há falsidade."

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