Midrashê Shabat VII

Meu amigos, após mil anos tentando retomar a série Midrashê Shabat, eis que finalmente consigo. Para quem não a conhece (ou ao menos não a conhece pelo nome), esta é uma série de textos publicados as sextas ou sábados (correspondendo ao Shabat dos Judeus) onde faço uma interpretação de ditos de Jesus sob uma ótica Judaica. Traço paralelos entre os ditos e as Escrituras e, não raro, utilizo até mesmo de material apócrifo (quando este está em concordância e serve de forma suplementar)

Há 7 textos da série (o de apresentação em que falo acerca do Shabat, especificamente, e outros 6 sobre os ditos de Jesus propriamente) e todos podem ser acessados no site cujo link vai abaixo. Vamos aqui então para o oitavo texto da série, o sétimo texto sobre os ditos. O versículo sugerido por um leitor e que será matéria de estudo neste texto não é um dito próprio de Jesus, mas uma referência feita a Jesus por seu predecessor João Batista, em termos mais ou menos esotéricos como segue abaixo:

“O Machado já está posto à Raiz e toda arvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo.” (Lucas 3:9)

O dito de João parece bastante claro, autoexplicativo, e Jesus, de fato, assim como João, também utiliza-se desta imagem da Árvore e seus frutos para referir-se a uma pessoa e seus atos. Demonstra com isso – dentre outras coisas – que a pessoa é reconhecida por seus atos, assim como a árvore é conhecida por seus frutos. Que uma boa pessoa não poderia cometer más ações, assim como uma árvore boa não produz frutos podres, e uma pessoa ruim invariavelmente cometerá atos ruins, pois uma arvore apodrecida não poderia produzir frutos bons.

De modo semelhante Jesus utiliza a analogia do bom tesouro e do mau tesouro (Lc 6.45) para demonstrar que o Homem cujo mal é frequente em sua boca (seja por lamúrias, por maldizer os outros etc., etc) retém um grande mal oculto em seu interior, pois “O Homem bom, do seu bom tesouro retira coisas boas e o Homem mau, do seu mau tesouro retira coisas más. Digo-lhes que a boca fala daquilo que está cheio o coração”

Mas o motivo da escolha deste dito de João Batista não está no uso desta analogia didática usada por ele e também muito usada por Jesus, pois, como vimos, é de fácil e simples compreensão. Escolhi o dito pela expressão “O machado já está posto à Raiz das arvores”; imagem utilizada por João para expressar a vinda de Cristo. Esta imagem contém um conceito profundo que é, inclusive, abordado e desenvolvido no Evangelho de Filipe.

É ensinado que, enquanto a raiz da árvore está escondida, ela brota, e cresce. Se no entanto a raiz é exposta, a arvore padece e seca. Assim é com a raiz de uma árvore, que está diante dos nossos olhos, que portanto nos é revelada, e assim também é com aquilo que nos é oculto, que não está diante de nossos olhos, e que portanto não nos é revelado.

Enquanto a raiz do Mal está escondida, ele permanece forte. Mas quando reconhecida, ele perece – quando é revelada, ele é extinto. O que é cortado brota outra vez, mas o machado penetra profundamente até trazer a raiz para fora. Jesus expôs inteiramente a raiz de todos os males, consequentemente arrancando-os e eliminando-os por completo. Cabe a nós cavar em busca da raiz do mal, identificar o mal enraizado em nosso interior, para de fato conhece-lo, revela-lo e então arranca-lo pela raiz. Quando você identifica o mal oculto, está “trazendo-o para fora”, “revelando-o à luz do dia”, e consequentemente matando-o.

Por outro lado, se o ignoramos, o Mal já enraizado em nosso interior continuará a produzir seus frutos. A tendência natural é que ele cresca e termine por nos dominar. Estaremos condicionados a reações muitas vezes inconscientes, que nos levam a dizer palavras e cometer atos que nós mesmos não compreendemos inteiramente e que, não raro, vão contra nossa própria vontade. Quantas vezes você pretendeu agir de certo modo, reconheceu que tal caminho seria o melhor para você, mas simplesmente não conseguiu segui-lo por não conseguir controlar-se, terminando por fazer algo diametralmente oposto ao que havia pretendido? Temos a ilusão de ser inteiramente livres mas muitas vezes estamos apenas condicionados por pensamentos e vícios que mal identificamos e vivemos respondendo a estes estímulos somente. Por isto é dito que a Ignorância é a mãe de todos os males: – Enquanto o mal está em segredo, oculto em seu interior, permanece plenamente ativo, produzindo seus maus frutos.

Já a Verdade é o seu oposto: – Enquanto está em segredo, oculta em seu interior, repousa em si mesma; inativa. Mas quando é revelada e conhecida passa a ser louvada, pois é poderosa e da seus frutos em abundância, trazendo a verdadeira vida e liberdade. Cristo nos diz: – “Conheçam a verdade e se tornarão verdadeiramente livres” – A ignorância nos escraviza com sua miríade de vícios e atos inconscientes mas o estar plenamente consciente o torna Senhor de todos os seus atos.

Publicado por

O Lenho Verde

"Aquele que fala por si mesmo está buscando o seu próprio prestígio. Mas quem busca o prestígio daquele que o enviou é verdadeiro, e nele não há falsidade."

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